no coração do ai passou (por nós) um cão
(mostrou menos do que palavras)
mordeu a tua perna – não te enerves; a crescente
volatilidade corrói todas as lacunas
da história e a cor do que não vemos.
tem calma! a seguir ouvirás: não suporto
ser observado por homens!
desde ontem há um cão que merece ser ouvido!
passou por nós; à noite – atrás das palavras
no coração
do ai. não o vimos, cegos
por uma realidade cada vez mais fragmentada.
o cão farejou: uma caixa de metal
onde os sonhos funcionam como gatilhos
ouviu tretas solenes sobre democracia!
sabia bem por que abria os dentes: toda a gente
tem certezas; a sobrevivência não é morte no paraíso
o calor das fogueiras faz-se de narizes
à solta. rumos e ruídos. no coração do ai
onde passam cães. devolvendo os dedos
às mãos; reinventando o toque de um corpo
consagrado à verdade. às palavras com alma.
há pessoas cruzando a cidade improvável
onde os sonhos andam à roda com a dança da feiticeira
destruidora do poder da convicção.