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sexta-feira, 1 de maio de 2026

labirinto de ideias IV

entre a terra e o mar, a agitação escumante - profunda e lendária

suporta a narrativa enérgica do silêncio dos corpos calcinados -

a solidão trivializada tenta em vão soltar a vida evaporizada!

entre a terra e o mar o misterioso declínio da narrativa mais enérgica

de nós; caras eretas olhando o clima de guerras abertas – misterioso

declínio onde o silêncio se agita húmido por entre o silêncio que aparta

terra e mar.

 

entre a terra e o mar – solidão e vida evaporada! - há portas 

húmidas e frias – frases que perdem valor na agitação marítima

e no desejo de serem o que sempre foram: palavras ordenadas

em silêncios petrificados - corpos calcinados, vida se evapora,

na solidão trivializada que comanda os dias fatais no silêncio do teu rosto.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

labirinto de ideias II


decadência no muro do tempo: aparências levantadas
em clima de combates descerrados  – misteriosa decadência
abrindo passagens por espaços ocos; além da noite fria – onde o silêncio
dos corpos calcinados dissolve a vida numa solidão trivializada.
 
entre o silêncio que aparta terra e mar há portas: frases que perdem
o desejo de serem palavras ordenadas, fixando-se em silêncios
petrificados, onde os corpos calcinados persistem e a vida se evapora,
dia após dia, no silêncio fatal do teu rosto.

sexta-feira, 13 de março de 2026

no silêncio não há inocentes

desaparecido no carácter sombrio da noite; esbanjo
as palavras
                (sempre prontas a propagar ideais – mesmo vindos
                 de afinidades improváveis)
todas as palavras; feitas serenos fulgores: a linguagem da noite
desfaz-se nas imensidades de factos
                 (do soalho à floresta há vida; há morte: veracidades sem filtro
                  ruídos discretos; inquietos – ordem abrindo as portas do fim
                a sonoridade das palavras; som com outra profundidade – quando as                      memórias mais antigas)
sobem ao palco dos dias cinzentos. onde nenhum silêncio é inocente.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

chusma de solitários


queimar a tua cor! quero

sentir o cheiro do teu arco-íris

filmar nele toda a estrutura molecular

que me mantém firme; junto dos teus olhos

e sentir o cheiro que te envolve

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

é difícil subir a escaleira

deixar-te a pensar com a mão

no corrimão; apetece-me

desligar-te a luz

fazer-te caminhar sem rumo

 

apetece-me remeter uma mensagem

pequena; das que nos unem

junto à porta aberta

onde a luz do corrimão

nos influencia tudo.

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

eu sou tu

a cartilha em que aprendi a ler a vida

foi a mesma em que foram destruídas

a ironia, a obscuridade e a fealdade

 

às vezes, cada vez menos, vou abrindo

esta cartilha

na esperança de a ver corrigida

 

mas o corrector * lúcido que transporto sempre

comigo

nunca deixa que o tire do bolso.

 

* corretor

 

domingo, 3 de outubro de 2021

graça grata

de mãos abertas fiquei

à espera de ti

lá fora a noite comia os últimos grãos

da minha verdade; entraste

 

e eu ressuscitei a beleza

bem vaidosa!

 

 

Guimarães 06.07.17


sábado, 2 de outubro de 2021

eterno regresso *

paredes-meias com o medo

o vazio. pronto a desmoronar-se

desmoronando-nos. tempos de tumulto

e incerteza

 

e os dias que já não se fazem de histórias lindas;

desenhadas por crianças!


 

* qualquer confusão com o eterno retorno será sempre um erro da filosofia; Mircea Eliade, aparte.

Niilismos, afinal, não param de nos fustigar.

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

presença insólita


Na minha idade vive-se numa zona crepuscular que recusa a distância da morte, a saudade reúne os fantasmas e os de carne e osso.

Júlio Machado Vaz, Jornal de Noticias, 21.05.09

 

Há coisas lindas que só se veem à noite; pelo silêncio!

Talvez o frio seja claro!

Ou a solidão do olhar.

Sabes que pelos dias de isolamento andar na rua foi coisa horrível; frio...

É! E olhar os sítios habituais e não poder frui-los?

 

A vantagem dos diretos na internet é que passas rapidamente de um espetáculo para outro sem que ninguém se aperceba e tu ficas feliz por esse saltitar.

O que é que isso tem a ver com o frio?

Então não tem? Quem foi capaz de se emocionar com a morte; em alguns instantes com números em espiral…

Já entendo. E deixa-me perguntar: e o isolamento com que se construiu uma imensidão de dias fez-nos perder tanta lucidez?

 

Então as coisas lindas que só se veem à noite; pelo silêncio e no silêncio das ausências tornam-se bestseller (com todo o respeito pelos livros, obviamente) dos olhares que permanecem para além dos diretos?

Sem dúvida!, mesmo que, uma ou outra vez, se fique pelo efémero das palavras agressivas…

…. Mas não estamos a falar dos dias duros que – felizmente – se vão desfazendo?

Sim, claro!, mas sabes?, os dias que ainda andam agitados com outros diretos poem-me nervoso.

 

Gosto estranho! Não estamos no mesmo patamar dos que recusam a distância da morte?

Sei lá! Sempre odiei o que não existe e que alguns tudo fazem para nos pespegar que são deuses, fantasmas ou marionetas de sombras manipuladas por quem está sempre do detrás dos espetáculos que passam em direto na internet. 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Fotografia de perto


Precisamos de provocação e de quem nos desafie. Precisamos muito de quem nos escangalhe a moldura.

Inês Meneses, Ípsilon, 19.03.09

 

danças disfarçadas. tão belas! como adoro flutuar sobre a cidade! e se for à noite? tantas pessoas cruzando-a!

já era tempo de tirarem as máscaras, não achas?

para inventar o mundo percorremos a cidade dos homens; ficamos no desejo ardente que os anjos; só os anjos!, nos levem no caminho que sempre desejamos:

a rua por onde passou tanto do teu encantamento

de pecado em pecado numa cidade aborrecida

 

bem sei que tu dizes que não te importas de envelhecer, mas numa altura em que até as profissões estão em aceleradas metamorfoses tu acreditas que calar as dores tácitas ajuda no regresso à cidade?

duvido.

 

regressar à cidade onde há corpos empilhados e tantos dramas sem resposta!

na cidade branca – quando o ar imundo sobe nos céus pestilentos – o tempo e o espaço do progresso morrem; espasmam-se nos dias de outros tempos…

há tantos mitos na cidade branca!

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Formas com futuro


 

Ao imaginarmos uma cidade sem cultura, com que ficamos? Quão lúgubres seriam as cidades sem cultura?

Justine Simons, vereadora da Cultura e Indústrias Criativas de Londres, Público, 19.11.12

 

 

há tantos mitos na cidade branca!

se há! dores intensas; tantos dramas. dores de quem é incapaz de perceber que uma urbe é referência de beleza adusta que nada tem a ver com quintas muradas cercando vegetais verdes na subida da montanha.

parece que a cidade desce até nós – já só se faz de corpos esbeltos; sempre envoltos em vestidos pretos

 

a idade maior? perdeu-se na cidade; nas ruas sujas de vaidades e focos desfocados.

a cidade?

enquanto se espera uma novidade que nos agarre à urbanidade; às suas ruas belas e à polidez…

- …espera lá. de que cidade nos falas?

- da cidade. deixa-me abraçar a idade maior! há por aí muita gente que não sabe o que é isso.

- obrigado! há tantas misturas na cidade!

 

é domingo. hoje não quero subir ao coração da cidade. não estou cansado. odeio ser enganado por desejos parvos ou por encenações baratas.

domingo, 12 de setembro de 2021

analogia de desequilíbrios

carro ligeiro serra acima; acelerador apertado no ruído absurdo!

gases poluentes amparando a subida sem contemplações.

entro na montanha virgem; de verde sagrado. pássaros fogem assustados.

plantas abraçadas à ternura dos dias são tenores

na sinfonia afinada contra o bafo negro da passagem por caminhos

prestimosos. assistem à pesada herança dos pecados

saborosos que cantam no interior do monstro de metal.

 

vou feliz; descontraído. não sinto os gases poluentes violentando

o verde vegetal. não ouço o ruído absurdo do motor; ferindo

pássaros assustados. acelerador a fundo sou mais um precipitando

o fim deste sítio belo; encanto onde vivo.  aproximando-me

do fim em cada aceleração de prazer.

 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

o déspota em couros


abancado no seu recôndito aristocrático mira com desdém

quem circunda. olhar ditatorial!

tremendamente assustador. nem sabe

 

que o fim está aí; depois do silêncio das águas

dançando com as pedras sagradas da história.

domingo, 5 de setembro de 2021

cidade morta


a cidade gelou na geometria de edifícios

mortos para a estética da beleza

procura o sonho nos bastidores de silêncios

e favores emocionados; à flor da liberdade

a cidade está silenciosa nos pedaços

 

da úlcera do porvir de um tempo livre

onde a vida inaugura as pedras tombadas

sobre as mazelas douradas que buscam

o saber maldito da modernidade na cidade

edificada em catedrais de ilusão

sábado, 28 de agosto de 2021

testemunhas de angústia


 

há um corpo escondido na cidade

ninguém vê. a cidade ignora os silêncios

as presenças além de si e dos promotores

 

uma lufada do campo? certeza absoluta:

esta casa recorda que caiu uma estrela

numa cidade em efervescência

controla os danos da gestão da rábia

 

há um corpo escondido na cidade

ninguém o vê; vive nos silêncios dos engenhosos

de tempos novos: ilusão de urbanidade!


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

como se liberta a poesia?


 

caminhada pela periferia da cidade

à sombra do pai; a cidade – vazia

– pronta a mudar o nosso medo

 

guerra de tempos; na carne

magoada dos humanos feridos

por tantas ausências

a liberdade ainda é uma quimera?

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

clamor do vazio


 

caos generalizado: cidade afogada; clamor

no vazio. cidade perdida – cidade assentida

cidade sem saída – cidade tóxica

uma cidade irracional

 

cidade que não existe; cidade que perdeu

a glória. abalos tectónicos por detrás!

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

vamos medir a sustentabilidade

como se fosse a minha casa; como se fosse

a última noite

como se fosse verdade! companheiro

 

de passeio; companheiro de vida

companheiro indispensável! companheiro

da melhor liberdade urbana. sim!

 

resistência

a todas as facilidades tentadoras

cidade estéril; cidade nervosa em paralelismos

 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Má sorte andar na vida

Não estamos no fim do mundo. Mas talvez um ciclo em que todos os elementos valessem o mesmo, em que o Homem não estivesse acima de nenhum deles.

Ana Deus, Ípsilon, 20.04.24

 

a noite está fria; quase gelada. ninguém circunda na rua. as luzes altas

agora são mais brilhantes e, dizem – sem o comprovar (para nos tentar convencer das suas opções menos quentes, mas cheias intenções intensas; politicamente) – mais amigas do ambiente

desenham fantasmas no nevoeiro noturno.

 

ao longe avista-se o movimento de dois vultos. caminham discretos e muito certinhos na minha direção

vamos cruzar-nos

a noite está fria; quase gelada. dois corpos serenos cruzam-se. e o frio morre na solidão da ausência de futuro

 

estou a estranhar o ambiente. não ouço vozes. não vejo ninguém. terei entrado no sítio errado? 

ambiente de absoluta decadência…

sábado, 24 de julho de 2021

o limite e o risco


 

nos poemas trágicos matamos os sonhos

permanecemos. nos pesadelos – epidemia silenciosa.

temos que voltar a descobrir o silêncio!


esquecer 

os encantos da esquizofrenia.

somos divergências ou trocamos

todas as noites de esperança?

Realidades feitas epopeias IX

    Morre por queda de peso de cima , no acidente, ou por falta de solo e baixo , por velhice. Gonçalo M. Tavares, in  O fim dos Estados Uni...