segunda-feira, 22 de junho de 2026

o teu amor: luz que não se apaga V

há um incêndio lento no interior do silêncio — não ardes: revelas.
és a origem secreta do pulsar, o intervalo invisível onde o coração aprende a existir.
nos teus olhos, nada vejo: atravesso — horizontes que se desfazem
fronteiras cansadas de ser limite. nos teus gestos, o mundo abranda,
ajoelha-se à evidência do abrigo. e a tua voz — não som, mas memória anterior ao som —
canta o que o tempo esqueceu antes de nascer. és a ternura que me reconstrói
dos escombros que fui, a luz obstinada que impede a noite de me possuir por inteiro.
e quando o tempo — esse artesão da perda — tenta dividir-nos, o teu nome não cede: lateja
gravado na matéria invisível do eterno.
 
amor, és princípio que não começa, fim que não termina. raiz que me afunda no mundo,
asa que me rasga para além dele. és tudo — mas sobretudo o excesso
do que nenhuma palavra suporta dizer

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Realidades feitas Epopeia IX

 

Deem-me um boato e eu mudo de sítio o mundo.
Gonçalo M. Tavares, in O fim dos Estados Unidos (Relógio d’ Água)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

o teu amor: luz que não se apaga IV


o teu amor é um rio secreto que corre dentro de ti
trazendo sede e saciando-a num só gesto. é chama oculta – 
e mesmo quando o mundo se fecha , ele abre uma janela 
no coração; quem te guia, quem te devolve a ti mesmo quando te perdes
que não queima, mas aquece. é sombra fresca
num deserto de ausências. 

o teu amor tem rosto de estrela, olhar de manhã clara,

não é apenas quem amas – é também quem te habita,

 

o teu amor és tu e é outro, é encontro e é mistério

é pergunta sem resposta, é eternidade que se renova

em cada instante. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

os ratos assustam; é verdade

 Aqueles ratos tinham-lhe dado a volta

à cabeça e tudo ficaria melhor

quando tivessem desaparecido.

Alber Camus, in A Peste, (Editora Livros do Brasil)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Realidades feitas epopeias VIII


Os ratos assustam; são animais transportadores do diabo a quatro.

Gonçalo M. Tavares, in O fim dos Estados Unidos (Relógio d’ Água)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Realidades finais?

 

Antes de o Ocidente cair 

a espécie humana estará extinta

como a morte dos corais e dos oceanos

anuncia em vão.

Clara Ferreira Alves, E (Expresso), 25.06.06

quinta-feira, 21 de maio de 2026

o teu amor: luz que não se apaga III

o teu amor não tem um só nome; é um sopro
escondido no vento, um olhar que se demora no silêncio
é quem te faz sorrir quando a noite pesa,
é quem o teu coração chama mesmo sem voz,
é quem caminha contigo mesmo quando não está presente.
o teu amor é espelho e horizonte, raízes e asas,
ferida e cura, luz que não se apaga.
onde cabem todas as palavras. o teu amor.




o teu amor: luz que não se apaga V

há um incêndio lento no interior do silêncio — não ardes: revelas. és a origem secreta do pulsar, o intervalo invisível onde o coração apren...