sexta-feira, 27 de março de 2026

outra vez o vento


outra vez o vento;
a infância e as ervas verdes – quase a dessecarem
sob os carvalhos cada vez mais corcovados: sombra e encanto da minha infância!
(recordo tão bem o carvalho do lado esquerdo do caminho;
mesmo encostado ao muro onde a fotossíntese luminosa das pedras
musgosas separava o passado saído do monte do caminho de ensaibro
que me levava á escola!)
 
hoje são memórias; mesmo memórias doridas; a escola está lá –
silenciosa e despida nas folhas e nos meninos – desfrutando
de uma roda para extrair água do poço; dizem que seco!
o recreio empedrou-se e magoa os corpos.
 
hoje outra vez a vento; já não há ervas – nem secas – os carvalhos
vestiram- se de cimento e dor ensanguentada por entre o mato também morto
e nós, sentados à beira do que resta,
inventamos um tempo que não se mede em olhares.


quarta-feira, 25 de março de 2026

Realidades feitas Epopeia II

Estúpida como um tijolo fica a cabeça
do homem moderno diante do perigo
sem forma e sem causa aparente.

Gonçalo M. Tavares, in O fim dos Estados Unidos (Relógio d’ Água)

domingo, 22 de março de 2026

“rex non est patronus”


olha sempre em frente meu amor – como quem atravessa o campo adusto
depois do lume; há cinzas nas momices: um rumor verde a crescer
onde ninguém ousa prometer o devir. caminhamos meu amor! não te angusties
por amansar a béstia das belezas antigas; memórias de lugares expirados.
não te detenhas nas margens do que fomos – há rios que só existem
esquecendo a nascente; e nós – feitos de tardes interrompidas –, aprendemos
a beber daquilo que nunca regressa. lembra-te: o silêncio não é ausência;
a forma mais inteira de dizer o mundo; quando as mãos
se encontram sem urgência e tudo o que arde se torna suportável.
 
em brito as casas – ainda – respiram devagar, como se guardassem
o segredo de não partir; ou os resquícios dos olhares de “rex non est patronus,
a pia batismal e nós, sentados à beira do que resta, inventamos um tempo
que não se mede pelos dias apressados onde vestias a liberdade – em brito;
sítio onde esqueço tudo o que destrói os dias; os lugares onde bebemos
as cores gritantes de quem alimenta os pelos de uma puberdade em lágrimas do mundo.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Realidades feitas Epopeia

 

A maluqueira na América

está dez pontos acima 

da maluqueira do

mundo.

Gonçalo M. Tavares, in O fim dos Estados Unidos (Relógio d’ Água)

sexta-feira, 13 de março de 2026

no silêncio não há inocentes

desaparecido no carácter sombrio da noite; esbanjo
as palavras
(sempre prontas a propagar ideais – mesmo vindos
de afinidades improváveis)
todas as palavras; feitas serenos fulgores:
a linguagem da noite desfaz-se nas imensidades de factos
(do soalho à floresta há vida; há morte: veracidades sem filtro
ruídos discretos; inquietos – ordem abrindo as portas do fim
a sonoridade das palavras; som com outra profundidade – quando as memórias
mais antigas)
sobem ao palco dos dias cinzentos. onde nenhum silêncio é inocente.

quinta-feira, 5 de março de 2026

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Certeza confirmada


 Foto de Patrícia de Melo Moreira (AFP)

A eleição de António José Seguro demonstrou que a maioria dos portugueses é capaz de se unir para salvar a democracia. E é essa mesma democracia que precisa de ser aprofundada e melhorada, com maior justiça social, fazendo diminuir a desigualdade e proporcionando melhores condições de vida a toda a população.

Rui Tavares, diretor, Visão, 26.02.12


outra vez o vento

outra vez o vento; a infância e as ervas verdes – quase a dessecarem sob os carvalhos cada vez mais corcovados: sombra e encanto da minha in...