terça-feira, 23 de março de 2021

caminhos de intuição


           na escada; à direita

as máscaras ignoram os corpos

que circulam; aquecem

a luminosidade branca que as observa

fico com medo, tantos disfarces!

 

quatro máscaras fúnebres resignadas;

a escuridão da sala é perfeita – dois corpos

esguios; ainda há disfarces embusteiros

e deuses agressivos nas máscaras?

 

vi-te!, há instantes. não me reconheceste.

por detrás da máscara.

a quietude leva tempo a acomodar-se, não é?

domingo, 21 de março de 2021

Circulação incessante

O tempo do fim está aí, diante de nós, a assombrar-nos, e já não é apenas no plano existencial e metafórico: a frase anuncia a forma contemporânea do desastre, já não é “o deserto cresce”, mas a “extinção aproxima-se”.

António Guerreiro, Ípsilon, 18.11.09

 

1. Nunca dou nada por adquirido. E nos dias que correm as certezas não param de escassear.

Mas há, não se duvide, vontade, atitude e modos de olhar o futuro que fazem diferenças. Qua aquecem a frieza e a solidão dos dias.

Senti-o bem recentemente. E não foi, apenas, no décimo piso.

 

2. Rememorando – se é que um internamento se recorda –, a minha passagem pelo piso 10 há uma certeza que me fica: a solidão, a reflexão e o sentimento sempre foram ajuda fundamental que acertam o rumo da Humanidade.

Senti-me, por uns dias, um cidadão do mundo. Não pela dor e confinamento, mas pela real certeza de que nunca se pode viver só. E porque senti como importa refletir contra a agitação dos dias.

 

3. Quando, depois da passagem pelo décimo piso, voltei para casa confirmei essa certeza: a Zé – também ela infetada com o vírus mais conhecido dos dias que nos amarguram, embora com sintomas ligeiros –, foi também atriz de uma realidade que nos transportou a um palco diferente.

Não conheço o encenador da dor que criou a triste realidade covídica, mas conheço muito bem o palco dos dias que nos agitam sob as luzes cénicas; da vida.

Voltamos, pois, a ser atores! Tenho a certeza de que com interpretações ainda mais robustas.

 

Nota de rodapé: voltaremos a Melgaço, não tarda. Para mais um grande momento de nós.

sábado, 20 de março de 2021

Destruição de um jardim

Dizem os cientistas que essa probabilidade [de que a covid-19 teve origem na transmissão de animais para o homem] vai aumentando à medida que a expansão humana ocupa os habitats animais, ou estes desaparecem pela desflorestação ou devido às alterações climáticas.

José Cunha, reflexodigital, 20.04.02

 

1. A minha recente positividade covídica trouxe-me imensas preocupações; incomensuráveis incertezas.

Algumas, por razões da pré-história covídica, ganharam corpo. Um corpo mais robusto.

E deixaram tantas dores!

 

2. Desde logo, uma dúvida que no (meu) tempo covidico se tornou uma triste realidade: a caminhada à hora de almoço (em tempo de teletrabalho) pela Horta Pedagógica, ia dando resultados orgânicos morreu.

Até que esse prazer me foi retirado. Raio de vírus!

 

3. Uns tempos depois; tempo suficiente (será?; o tempo covidico é ingrato e traiçoeiro!) para entender pormenores que nos deixam cegos, fica-me uma certeza: são muitas as dores e resistências que vão ficando; ficaram, na verdade!

 

4. A covid mata. Destrói.

Não ignoremos a sua existência destruidora.

 

5. Há canais, por dentro, que não jorram. Memórias que se foram.

O tempo ajudará?

Veremos o que o senhor tempo fará!

Sempre foi um amigo. Em quem confiei sempre.

 

6. Enquanto nos mantivermos reféns deste destruidor importa dar valor ao espaço que nos rodeia.

E fazer muito mais do que o nosso comodismo pela realidade ambiental que nos vai matando; a cada instante.

Mesmo que o ignoremos. Ou façamos de conta que somos os seres superiores.

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Obrigado imenso

O tempo covid está dissolvido na água dos dias iguais.

Clara Ferreira Alves, E, 20.10.17

E (quase) no final de um percurso que se fez de dores, agitações, muitas incertezas e dúvidas, importa trazer aos dias que correm a importância da realidade.

Importância que é, no fundo desta realidade pandémica, o contacto com quem sabe.

 

1. A médica e a enfermeira de família; da minha família, foram sempre presença nos momentos covidícos por que passamos. Por telefone sempre orientaram e ajudaram. Muitas vezes, com chamadas ‘fora de horas’, mas sempre com o mesmo tipo de preocupação e orientação.

E quando assim é, sentimo-nos mais seguros, não é?

 

2. Por via de qualquer dúvida: fiz o teste à covid-19 no dia 25 de janeiro; às 13H00. No mesmo dia, cerca das 23 horas, recebi a sentença: positivo.

O rastreio de contatos aconteceu no dia seguinte, a meio da manhã. O telefonema foi rápido. Porque as respostas eram óbvias.  

 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Beleza transformadora

Estava a tentar encontrar o caminho dentro da loucura atual.

Salman Rushdie, Ípsilon, 20.10.16

Manhã de domingo. Regresso às hortas. Perdão! À Horta Pedagógica de Guimarães.

Afinal, é mesmo ali! Ao pé de casa. Sempre disponível para receber as agruras das horas más.

Sol lindo. E as árvores com rebentos. A vegetação a dizer que depois do inverno; tenha ele a forma que tiver, a primavera é sempre a normalidade seguinte.

E o Couros que corre com tanta água! Diria límpida; mas tenho medo de ainda não estar com o olhar arrojado como antes das dores que retiveram o corpo e a vontade.

Uma certeza eu tenho: com debilidades na caminhada, muito lenta e dorida para os músculos, o espírito é outro.

É tão bom ver o piso 10 daqui; longe das camas de internação!

quarta-feira, 17 de março de 2021

Vibrações positivas


À pandemia de Trump, à febre de Bolsonaro e à disenteria de Ventura não se deve juntar a falta de imaginação e de esperança que é o estado geral do alarmismo e derrotismo.

Afonso Reis Cabral, Público, 20.03.05 (edição dos 30 anos)

 

Só hoje, quinta-feira, estou a ler o Expresso, da passada sexta-feira.

Ainda bem!

Não gostaria de ter estado internado com as fotos de Rui Duarte Silva e Tiago Miranda que ilustram o texto de Christiana Martins na minha memória toda baralhada. E no meu espírito á procura da acalmia dos dias.

Mas gosto de jornalismo e textos assim: um país em carne viva.

São abanões na nossa estúpida indiferença, na nossa mania de que dominamos tudo. Até o sítio que não já não é nosso!

Felizmente que há sempre uma Beleza transformadora.


 

terça-feira, 16 de março de 2021

Corpo em suspensão

Posso ir embora daqui a instantes, deixando inacabado este texto. Mas a verdade é que, sem garantir que chego ao ponto final, o estou a escrever cheio de futuro.

João Aguiar Campos, Igreja Viva, 19.01.03

 

Primeiro dia em casa. Tarde linda de sol.

Na rua passam carros; sempre. Muitos e a velocidade de desejos por cumprir. Como seria se não fosse a zona calma que é suposto ser?!

 

Casais passeiam os filhos ao sol.

Imagino que vão para a Horta Pedagógica de que tenho tantas saudades.

Deve ser defeito meu ou do meu olhar provocado pela dor e prisão em quarto, depois da enfermaria, mas parece-me gente a mais a passear a meio da tarde.

Se calhar, como não tenho acompanhado as noticias, já não há confinamento!

 

Depois da primeira tarde a olhar da minha janela só podem acontecer vibrações positivas!

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Confiança alta

Ficamos em casa, lemos livros e assistimos a séries na televisão, mas de facto, estamos a prepara-nos para a grande batalha de uma nova realidade, que nem somos capazes de imaginar, chegando devagarinho à conclusão de que nada jamais será como era antes.

Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura, Expresso, 20.04 25

 

1. Afinal, mesmo estando já em casa, não larguei o pijama; tenho confinamento obrigatório de uma semana!

Estou, é verdade!, sozinho, no meu quarto de sempre.

(A Zé foi ‘corrida’ para o outro quarto, mas não me deixa em paz. Gosto dessa casmurrice tão carinhosa!

Obrigado Zé! És um amor.

Sem forças e com esta dificuldade em mexer as pernas o que seria de mim sem a tua proximidade?)

 

2. Num desafio (ou preocupação) gostava de deixar uma sugestão para quem vai ser internado:

objetos a levar: uns fones; ou auscultadores. Evitam tardes de TV em modo arraial.

 

Ah! Agora já não tenho o corpo em suspensão.

domingo, 14 de março de 2021

Viagem abençoada

Ao mesmo tempo que mudamos, os sítios também mudam.

Piotr Anderzewski, E, 19.09.21

 

O meu regresso a casa depois da alta hospitalar foi feito numa ambulância do Centro Hospitalar do Ave; dois jovens simpáticos e prestáveis como já não via há muito. Em termos profissionais foram excelentes! Mas não só, a maneira como um e outro se disponibilizaram para ajudar devia constar dos cânones de certas empresas.

Que gente prestável e simpática!

 

O fim de tarde estava frio. E chovia. Foi o pior!

Não esqueço o esforço que fizeram para entrar na garagem do bloco onde vivo para que eu não sentisse a chuva e o frio. Quando assim é nem a chuva o frio nos travam.

Obrigado, meus senhores!

Infelizmente o veículo era mais alto!

 

Nota de rodapé – fico muito feliz pelo reconhecimento por parte da ARS Norte na boa prática clínica ao Hospital de Guimarães; no que á covid diz respeito. Senti bem de perto aspetos salientados na avaliação, por enquanto por lá estive. 

Uma nota final que me fez pensar: três semanas seguidas, quer o Ípsilon, quer a E, três capas negras. O que me terá escapado? 

Mas, apesar da cor das capas, aí está a Confiança alta.

 

sábado, 13 de março de 2021

Caminhos da luta

Não se terá dado o caso de termos regressado a um ritmo de vida normal? De o vírus não ser o distúrbio da norma, mas precisamente o contrário – o mundo agitado antes do vírus é que era normal?

Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura, Expresso, 20.04 25

Amanhã largarei o pijama e o piso décimo.

Finalmente!

Tenho saudades da ganga; dos jeans e dos pés no chão.

Mas tenho medo aos pés; não sei como reagirão ao piso duro. Estão sem músculo. E então as pernas!

Doem. Como se eu estivesse a sair de uma corrida tremenda.

Prendem-me ao sítio.

Amanhã, sim! será uma Viagem abençoada!

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Encontros imprevistos

Mais do que qualquer outra coisa, esta pandemia derrubou, completa e finalmente, a ideia de que os indivíduos que estão na liderança sabem o que fazem. Muitos deles nem sequer fingem que estão a liderar.

Barack Obama, in Visão, 20.05.21

 

Da urgência covid, onde dei entrada nos primórdios de fevereiro, tenho poucas memórias.

Sentia-me um não eu; baralhado. Confuso. Fora de mim.

E com falta de oxigénio.

    (percebi, depois, o que me ensonava. mas senti.

            e a experiência não é coisa que possa deliciar.)

 

Mas nem tudo se apagou da minha memória

(perdida com as brancuras provocadas pelas traquinices da queda oxigénica)

 recordo – recordarei  – o carinho e cuidado dos profissionais que naquela noite foram os meus sacrossantos heróis.

 

E pronto! Depois dos caminhos da luta, seguir-se-á o retorno aos entes.

 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Chorar faz-se longe de casa

Estamos defronte de uma doença séria. As pessoas não se aperceberam imediatamente da gravidade do problema, que não é só das pessoas idosas. Nunca pensei que na minha vida iria encontrar algo tão parecido com os grandes problemas da II Guerra Mundial.

António Damásio, Público, 20.11.29

 

1. Com o tubo estreito que distribui o oxigénio pelas narinas introduzido no nariz parecemos astronautas que não se podem mover para muito longe da cápsula.

Por mim, neste décimo piso, não é muito grave. Tenho a janela de frente. Mesmo ali. É todo um mundo com novas visões.

 

2. Não sabes como colocar a ligação do oxigénio no nariz?

Aprende depressa.

Não há tempo para explicações. Pelo menos em tempos pandémicos.

 

3. Na enfermaria não és dono de ti; do teu tempo. Dependes sempre da qualidade dos profissionais de saúde; daqueles que dão tempo e qualidade ao teu tempo.

 

4. Entrar de madrugada na enfermaria, para seres internado, é entrar de gatas na vida.

O que vale é o olhar sobre Guimarães! E as vistas são fabulosas.

 

5. A máscara e a viseira tornam praticamente impossível a comunicação entre doente e equipas médicas.

Têm, as duas, uma (pequenita) vantagem: pode chorar-se; sem drama! Mesmo que exista uma cidade do final.

 

Depois de cinco apontamentos para refletir um internamento vale mesmo a pena observar os encontros imprevistos.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Bom pressentimento

Eu sou um grande fã de cidades. Sempre quis que elas fossem personagens dos filmes.

Woody Allen, E, 19.10.19

 

 06H58. E a lua já subiu na cidade.

Desde as cinco horas que acompanho o seu percurso.

Agora o céu aclarou.

Tem manchas vermelhas no regaço. A cidade continua calma.

É domingo. E já recebi a prometia visita clinica. O dia promete.

 

07H24 o céu mesclou-se de azul e vermelho. Que beleza!

 

A tarde, depois de um almoço que parecia saído das mãos de um chef de um dos restaurantes com marca, tornou-se nostálgica. Deu para ouvir Deep Purple (que bom ter alguma música na memória do telemóvel). É o que faz não ter intenet por estas bandas!

Mas sabe sempre bem recordar grandes bandas.

E no piso dez; enquanto olho a cidade até não se está mal.

 

Ah! Chorar faz-se longe de casa.

terça-feira, 9 de março de 2021

De surpresa em surpresa

[o vírus] mostrou-nos que a nossa agitação frenética ameaça o mundo. E voltou a colocar-nos a pergunta que raramente tivemos coragem de colocar a nós próprios: o que é que, na verdade, procuramos?

Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura, Expresso, 20.04 25

 

Guimarães acorda cinzenta.

Parecia, mesmo no raiar da luz, apenas uma neblina, mas, de repente, o céu assevera um dia triste.

As luzes já desapareceram; da Penha só uma cerração pesada a esconder os seus encantos.

Foi dura esta noite!

Mais sono por agora! É fundamental acalmar as entranhas espantadas pela agitação da noite.

Mas, assim de repente, parece-me que há por aí um bom pressentimento.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Luta dura


 

Há alguns indícios de que podemos vir a sentir-nos espetadores diferentes com os nossos corpos pós-pandémicos.

Isabel Salema, Ípsilon, 20.12.23

 

Não é bom ver alguém em desespero. E, confesso, há realidades desanimadoras, que só as tinha visto como cenas no cinema. Numa me imaginei perto da realidade que esses quadros dramáticos transmitem.

O que só dá razão à máxima: há realidades que estão mesmo ao nosso lado; muito mais próximas do que imaginamos.

 

Nesta na minha passagem pelo décimo piso acordei, não com uma cena de um filme, mas com uma realidade bem séria; ali mesmo ao meu lado. O ator forçado era um colega de enfermaria, no internamento, numa ação que se fez de um imenso alvoroço.

Nunca me imaginei a acordar com uma equipa de profissionais de saúde entrando em tanto rebuliço pela enfermaria adentro. Fecha-se a cortina e o som do oxigénio aumenta de intensidade. É final de domingo.

 

Ainda estivemos pelo décimo piso uns dias. Tive alta, entretanto, e acredito que tudo não passou de um valente susto. Por isso, meu caro C., vamos ver-nos por aí, não vamos?

 

Afinal, o passar dos dias, faz-se de surpresa em surpresa.

domingo, 7 de março de 2021

Espaço em volta


É nos cinzentos que se encontra muitas vezes a verdade.

Mário Cláudio, Minha, janeiro 2020

 

As nuvens daqui do décimo andar agarram formas belas; mais belas que as nuvens de todos os dias.

Umas, serão deuses para quem não vê que deus é uma criação do homem. Outras serão, seguramente, animais míticos e bélicos mais poderosos. Também essas assumem criações pias.

O que quer que sejam, aquelas formas sublimes sobre a cidade colocam-me na bandeja da felicidade um final de tarde fabuloso, extraordinariamente belo; cheio de luz.

Quem disse que um internamento, mesmo que pelo vírus dos dias que correm, não pode ser (para a grande maioria) um momento menos intenso, quando olhado pelo lado do desejo poético dos olhares?

 

Uma nota de rodapé: Não percebo por que há tanta gente a dizer que a comida no Hospital não é boa. Só quem faz questão em manter uma alimentação salgada é que pode dizer isso.

 

Ah! Virá, depois, uma luta dura.

sábado, 6 de março de 2021

Linha dos dias; subtil

Se perguntar o que é o amor, a ciência não sabe responder.

Carlos Fiolhais, E, 19.02.09


1. É sábado, sinto-me perdido e com a impressão de que toda a gente em todo o mundo sabe tudo sobre mim. Observa-me. Como eu que examino a cidade do décimo andar. 

Odeio os parvos, e são muitos, que cruzam a circular urbana. Como detesto, os outros, que, passeiam pelas ruas da cidade. Deve ser alguém para quem a palavra confinamento não existe.

Não os quero ver aqui. Aconselho-os vivamente as escutarem as palavras do António Durães, com aquela voz maravilhosa que não deixa ninguém indiferente, a dizer-nos como o vírus entra na festa.           

Equipa covid; na urgência covid – eu com frio e cansado, desorientado –, sossega o descontrolo que me faz perder o desejo de devir e sossega-me num repouso até ao internamento. Uma equipa (em trabalho seguido num conjunto enorme de dias) que foi dos grandes exemplos do melhor espírito de grupo e de trabalho em equipa que vi.

Tanta juventude por ali! Tanto empenho e tanto carinho!

2. Do meu lado, esquerdo – fui um felizardo!, fiquei à janela – mais duas pessoas. Já sei os seus nomes e as suas origens. Tal como eu, na paragem do tempo onde é costume mandar embora o vírus.

As Está a incansável equipa médica, enfermagem e auxiliar. Podem mudar de turno, mas a disponibilidade na ação, a atitude profissional, sempre atenta e carinhosa, estão sempre presentes.

Equipa covid; na urgência covid – eu com frio e cansado, desorientado –, sossega o descontrolo que me faz perder o desejo de devir e sossega-me num repouso até ao internamento. Uma equipa (em trabalho seguido num conjunto enorme de dias) que foi dos grandes exemplos do melhor espírito de grupo e de trabalho em equipa que vi.

Tanta juventude por ali! Tanto empenho e tanto carinho!

3.Pneumonia’ sempre foi uma palavra que me assustou; mesmo quando não a conhecia. Agora que a sinto bem dentro de mim e a chatear-me solenemente, descubro também a associação perfeita que faz dos dias com a beleza do caminhar: coragem. E então quando este ânimo vem de mão dadas com a motivação, as vistas da cidade têm outro encanto.

E dali do décimo andar!

Que dimensão de realidades belas! Como o deste final de tarde de sábado.

Com uma luz linda, diluindo-se no silêncio da cidade.

Vale, pois, prestar atenção ao Espaço em volta. Vem já a seguir.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Boleia segura

Para que um mundo melhor surja após esta pandemia, devemos abraçar e fomentar sentimentos de humildade e solidariedade gerados pelo momento atual.

Orhan Pamuk, E, 20.05.09

 

A comunicação sempre foi fundamental para aproximar as pessoas. E então quando se fala de quem nos é mais próximo ou que desejamos próximos, ela tem a importância de uma certeza: os amigos são sempre amigos.

Sempre soube disso, mas senti-o, de forma intensa e saudável, nos dias em que o vírus do momento resolveu tomar conta de mim; e deixar-me entre o confinamento caseiro e a cama do Hospital.

Foram imensos os abraços e beijos que me foram endereçados.

O telefone tocou muitas vezes, mas não atendi; a voz ainda não me deixava falar muito tempo.

As mensagens todas tiveram resposta. 

E foram muitas as missivas recebidas. Todas vestidas de sentimentos, traços que perduram. E deixam um calor forte que aquece por dentro.

Num critério muito pessoal deixo algumas:

·         Vai correr tudo bem, de certeza! E vai passar rápido.

·         Só para dar um abraço com muita força.

·         Um grande beijinho nesta hora. Sei que estás a melhorar o que me deixa descansada. E que estás a gostar da comida do hospital.

·     Espero que a sua estadia no hospital seja curtinha. Fico feliz que esteja a ser uma    experiência positiva apesar de tudo!

·    Muita força! Um dia de cada vez! Tantos anos a achar que a comida do hospital não prestava e afinal não é nada má!

·         Que vá embora rápido esse chato!

 

Por agora não tenho mais nada a escrever. A não ser dizer que vem a seguir Na linha dos dias; subtil.

 

olhando a cidade III

  O que ainda falta em Portugal é a presença vegetal. As cidades são muito cinzentas , especialmente na periferia. Sónia Lavadinho, consulto...