Este culto, não da
morte, mas da imortalidade, inicia e conserva as religiões.
Miguel de
Unamuno, in Do sentimento trágico da vida
1.
Pensando na normalidade do ato cívico dos portugueses na escolha dos seus
representantes, tinha decidido não olhar para a deliberação que os eleitos do
meu país tomarão amanhã na casa da democracia, a Assembleia da República. E
tinha tomado essa decisão pela simples razão de que a eutanásia, sendo algo do
mais íntimo do ser humano, deve estar no patamar das decisões que implicam confiar
em quem, democraticamente, foi responsabilizado para dar diretrizes políticas e
de gestão dos dias difíceis. Sejam os cidadãos que resolvem terminar as suas
vidas de sofrimento e apagamento, sejam os cidadãos que, por vida da sua ação
profissional, colaboram – a medo – na decisão dramática.
2.
Mas,
depois de ouvir na RTP Luís Miguel Marques, um cidadão português há décadas
preso à dor e à máquina, mudei de opinião. Olhando para o cansaço e saturação
deste cidadão tetraplégico e para esta dependência da máquina e do vazio do seu
corpo, assumi quebrar o meu silêncio. Desde logo, porque Luís Miguel Marques
não tem a menor dúvida em dizer aos decisores políticos e líderes religiosos de
um país que teima em ser um barco à deriva entre as dores reais do ser humano
que, após o discurso circunstancial vão para casa quentinhos e sossegadinhos e
ele continua ali; em sofrimento.
3.
Chegado aqui importa olhar com toda a atenção para a opinião deste senhor – Alexandre
Quintanilha (Expresso, 20.02.12): é perfeitamente concebível que para muitos
(em que eu me incluo), não é só a dor física que é intolerável. É também a
ideia de que a “quantidade de vida” adicional não compensa a “qualidade de vida
perdida”. Argumento, para mim, sem discussão. E então junto deste – atualmente,
em Portugal, a decisão de terminar a nossa vida é solitária e frequentemente
angustiante. Continua a ser punível na lei a assistência por parte de outrem,
em particular por um profissional de Saúde – está tudo clarinho.
Ah! estas
palavras de Daniel Oliveira (Expresso, 20.02.15) – Viver
é um direito, não é um dever. Ninguém pode ser aprisionado no seu corpo,
condenado a uma agonia aviltante e dolorosa para satisfazer as convicções de
terceiros – também não me deixam quaisquer dúvidas.