segunda-feira, 31 de março de 2014

Um diabo que nos mata

1. Alguém acredita que os jovens portugueses – desempregados, dependentes dos pais, obrigados a emigrar – estarão disponíveis para semear Portugal com filhos? (…) Percebem-se melhor afirmações aparentemente absurdas como a de que “a vida das pessoas não está melhor, mas o país está melhor”. Sobretudo se não tiver pessoas.
Rafael Barbosa, Jornal de Noticias, 14.03.29

2. Como podemos espantar-nos por termos a taxa de natalidade mais baixa da Europa se os pais que têm filhos estão ameaçados de pobreza por os terem?
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 14.03.29

No próximo ano de 2060 não estarei por cá. Assumido. Nem quero estar. De forma alguma! E, afinal, “o futuro do nosso país está cada vez mais bloqueado por políticas nacionais e europeias e por práticas de governação mentirosa e manipuladora que aniquila a dignidade, a solidariedade individual e coletiva, que destroem a soberania e a democracia”. (Manuel Carvalho da Silva, Jornal de Noticias, 14.03.29)

domingo, 30 de março de 2014

Um deus que se diverte

Pois pode pensar-se que não exista algo de tal modo que não possa pensar-se que não exista.
Anselmo de Cantuária, in Proslogion


No próximo ano de 2060 não estarei por cá. Assumido. Nem quero estar. De forma alguma!
Passos, Portas e Gaspar também não. Mas um pedacito de portugueses – muito pequeno; muito pequeno mesmo – estará. Infelizmente. Para sofrer; penar violentamente.
A culpa das tremendas dores que por cá andarão é dos senhores que, com o prazer da espinha vergada a veementes interesses destruidores, deixou que a redução/diminuição/destruição dos portugueses seja o fim. O nosso fim coletivo.

(Um parênteses para dizer que na mesma semana em que o violento murro no estômago nos disse que Portugal está a definhar; sem habitantes, um jornalista a televisão pública resolveu alterar regras de entendimento com um dos comentadores habituais da estação para despejar fortes doses de fel sobre os olhares e espanto do dito; em direção aos impávidos espetadores).

Nunca saberemos a razão desta inversão de regras, mas torna-se óbvio que a fealdade nunca foi companhia de futuro. A não ser que ela seja o fiel alimento dos matadores do FMI e seus pares europeus que, a muito curto prazo, poderão gozar férias sozinhos por este espaço à beira-mar que já foi uma grande nação. A nossa.
E isso causa tanta dor!

sábado, 29 de março de 2014

lágrimas que rolam frias

é violento sentir o quanto somos iludidos – enganados
esquecidos – na proximidade dos que nos pareceram
sempre realidades sólidas. profundas. é violento
sentir que são os mesmos que nos matam. as palavras
podem parecer discretas – ferem mais que espadas
de samurais. é violento. perceber que estamos sós!
altura em que se torna óbvio que o coração
de cinzas é sempre solução.

já não tenho mais janelas; adeus!
amanhã estamparei o fim. ferirá mais corpos?
dá-me o cobertor vermelho! se uma janela se abre?
um espanto, claro! e posso entrar. e ficar
numa paralisia generalizada. vou dormir.
sinto-me violentamente engando. já tenho as mãos
todas em cinzas. salgadas em lágrimas perdias.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Cidade aberta? Claro. Sempre


Cada cidade tenta criar para si mais isto ou aquilo, mas temos que dar cabo destes pequenos muros que às vezes construímos.
Domingos Bragança
1. Na inauguração da exposição comemorativa dos 40 anos da Universidade do Minho (UM), uma mostra patente em frente aos claustros de Santa Clara, ou seja, da câmara de Guimarães, podem ser vistas as cores de que cores se fará o futuro universitário a norte de Portugal, um futuro que não para de sorrir, como escreve o jornalista Joaquim Martins Fernandes no Diário do Minho (14.03.19): o número de alunos que frequenta, o polo de Guimarães da UM “está a crescer acima da média.

2. Para além destas palavras do reitor da UM, António Cunha, ficamos a saber, em dia de aniversário, que um novo campus da UM em Couros é uma realidade é “para consolidar a internacionalização” daquela instituição de referência em Portugal. Ah!, e salientou o reitor da UM, que o culpado desta “universidade sem muros” que será “um exemplo mundial” é Guimarães, mais concretamente o seu presidente de câmara.

3. Será isso que o presidente de câmara, Domingos Bragança, quer dizer: “Temos de olhar a região como um espaço de coesão territorial e de qualidade de vida”?

quinta-feira, 27 de março de 2014

Arte de bem enganar

Nas reportagens que o canal público de televisão – deve ser para nos distrair das coisas sérias que nos vão matando aos poucos – foi exibindo sobre vómitos lúgubres nas dores humanas e onde se fala com gente que se diz estar muito para além de nós, da vida humana e das realidades deste mundo –, entrando em transes e contatos para além do normal raciocínio humano, ou seja, sobre alguém que se diz para além dos dias (há quem lhes chame outras cosias, coisas com mais pinta!) – a sensação que tenho ficado é que o cristianismo é gozado sistematicamente.
A sério! Se mais não fosse, pelo uso e abuso dos símbolos religiosos desta religião que marcou (e marca) a cultura ocidental. A começar pelo crucifixo. Sempre presente em cada exibição para afastar coisas!

Mas isso é algo que dá jeito a quem ilude as pessoas; fazendo-as esquecer das verdadeiras dores. Esses sim! atormentam e, se não mudarmos de rumo, matar-nos-ão.

Daí que, perante tais reportagens, me salte sempre uma dúvida: se há outros símbolos religiosos; de outras religiões, claro! por que carga de água estas exibições para incrédulos verem e exibicionistas do espírito faturarem não os usam?

quarta-feira, 26 de março de 2014

Cru, direito ao osso da dor II

1. Passos e Cavaco optaram por defender, intransigentemente, uma mentira piedosa: a de que Portugal pagará a dívida, sem qualquer tipo de renegociação.
Pedro Norton, Visão, 14.03.20

2. De que nos adianta a credibilidade se temos hoje um país onde nos últimos três anos se destruíram mais de 300 mil empregos.
Francisco Assis, Expresso, 15.03.22

3. Precisamos de um compromisso fundado na discussão e escolha de alternativas, não de um consenso fingido, baseado na proibição de discutir e escolher.
Augusto Santos Silva, Jornal de Noticias, 14.03.22

Depois desta violenta realidade que nos esmaga e que – logo, logo em junho – nos fará quase pó, só me apetece olhar para Vergilio Ferreira e a sua Aparição: “há homens que em toda a vida apenas afirmam; e se negam é para afirmar”.

terça-feira, 25 de março de 2014

Cru; direto ao osso da dor

Penso que atualmente se vivem tempos em que as pessoas estão perante uma necessidade enorme de Esperança. Sinto que o mundo, de uma forma ou de outra, receia cair num caos de valores.
Paulo Nogueira, SNPC, 14.03.19
Nem mais! Estas palavras do jornalista Paulo Nogueira vão diretamente ao osso da nossa – cada vez maior – indiferença. Fere como lâminas a realidade violenta que nos perpassa. Agora. Amanhã. Cada vez mais. E há tantos campos onde sentimos os abusos!

António Pinto Ribeiro (Ípsilon, 15.03.21) aponta – “o racismo não só não despareceu como reaparece carregado de ódio. Utiliza os epítetos insultuosos de antigamente, de quando os europeus descobriram que havia gente noutros continentes” – um.
Gravíssimo.
Os sinais à volta são tremendos. Violentamente próximos da destruição. Infelizmente quem governa continua a contar estrelas. Indiferente a tudo. Mas é urgente que se mude. Se mais não fosse, por esta excelente chamada de atenção de Fernando Santos (Jornal de Noticias, 14.03.21): “é errado não valorizar cada vez mais os movimentos de populações indignadas pela ineficácia ou degradação de serviços e equipamentos sociais”.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Agradável morte?

Putin só tem uma preocupação na vida, que é manter-se no poder. Os líderes europeus ainda acreditam que podem negociar com ele, mas Putin é uma causa perdida.
Garry Kasparov, Público, 14.03.18
Escreve Henrique Monteiro (Expresso, 14.03.22) que “há uma mãe Rússia em nome da qual todas as barbaridades se podem cometer. Esta espécie de impunidade abençoada levou, como sabemos, às mais extremas soluções – ali começaram os progroms (palavra russa) – entre os quais o da população tártara da Crimeia que ficou reduzida a metade por ação de Estaline”.
Esta ideia – tantas e tantas vezes esquecida ou intencionalmente ignorada por todos os responsáveis políticos a ocidente ou a oriente – que Henrique Monteiro nos traz à memória é muito séria. E tem que tirar o sono; pelo menos aos ocidentais.

Não se pode, de forma alguma, dar razão ao antigo campeão mundial de xadrez Garry Kasparov (Público, 14.03.18): “o ocidente não tem determinação suficiente para se opor à agressão [na Crimeia] e nem sabe muito bem o que fazer, uma vez que ainda está a falar numa solução diplomática. Mas qual solução diplomática? Não se negoceia com terroristas”.

Ou será que o ocidente e o oportunismo dos seus dirigentes só quando se mexe no comodismo instalado ou nas necessidades de ao pé da porta, se faz alguma ondulação?
Pouca agitação, é certo! Mas acalmar os mercados, certamente.
Repare-se nestas palavras de Manuel Tavares, diretor do Jornal de Noticias (14.03.22): “talvez valha a pena registar com alguma desconfiança que não fora a anexação da Crimeia e muito provavelmente a população da União Europeia passaria pelas próximas eleições sem alguma vez se chamara ao debate sobre a dependência energética do exterior”.

domingo, 23 de março de 2014

Isto não é um jogo de xadrez

foto: jn.pt
Enquanto na Crimeia o tema fraturante foi/é a inclusão ou não inclusão ma Rússia, entre nós o tema fraturante foi/é o sim ou não à calçada portuguesa. Isto faz, claro, muita diferença e explica, pelo menos em certa medida, o chumbo da Lei da coadoação pelos deputados portugueses.
Ana Cristina Leonardo, atual, 14.03.22

Diferenças. Dentro e fora.

sábado, 22 de março de 2014

combatentes ofensivos


prazer de esperar?
e logo por causa do inimigo!
ah! dizes que são histórias de uma vida apinhada.

prazer de esperar?
há muitas mulheres dentro de ti!
ah! nem longe nem perto demais: só o silêncio

prazer de esperar?
tempestade que se aproxima! um tiro
ao lado; não. não vou ficar. na grande lentidão.

prazer de esperar?
tempestade que se aproxima?
ah! as costas são cegas. e o inimigo
perde-se sempre no silêncio de mulheres.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ideias elásticas

 
1. O medo dos mercados não pode servir ao primeiro-ministro para tentar impor ao país um discurso único: o seu.
Fernando Madrinha, Expresso, 14.03.15

2. Podemos, é claro, acabar com o SNS [Serviço Nacional de Saúde], para pagar a dívida. Ou acabar com a escola pública. Ou com as Forças Armadas. Ou com todas as penões de reforma.
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 14.03.15

3. Para gerir a dívida nas regras atuais, são precisas duas coisas: ritmos de crescimento e saldos orçamentais como nunca tivemos; e manutenção, se não agravamento, das restrições orçamentais.
Augusto Santos Silva, Jornal de Noticias, 14.03.15

A máquina infernal que vende o governo em todo o lado também lê jornais?
E lá vamos cantando e rindo?

quinta-feira, 20 de março de 2014

Há sempre alguém que puxa por nós

Um bom gestor de uma empresa está sempre a tentar renegociar as suas dívidas. Mas o mesmo não serve para o país.
Ricardo Reis, dinheiro vivo, 14.03.15

Agitou-se o país. Até os super entendidos em coisa nenhuma vieram para a ribalta – quase sempre em hora do café depois do jantar – falar em coisas profundas que só eles entendem. Saídas das profundezas de uma alma cega. Ou da obscuridade de um umbigo partidário.
Mas, como escreve Manuel Carvalho da Silva (Jornal de Noticias, 14.03.15) o Manifesto pela restruturação da dívida já valeu muito pela agitação que desencadeou no pântano das inevitabilidades. Agita-se Passos Coelho e seus ministros, agitam-se os Catrogas, agitam-se candidatos da Direita ao Parlamento Europeu, agita-se a Comissão Europeia e até se agita o funcionário do FMI que esteve na troika há poucos meses.

Quando assim é, algo está a mudar na mentalidade bem pensante! Nos dias que ferem e matam cada vez mais. Por isso, manda o bom senso que se olhe para o tal documento dos setenta portugueses que resolveram mostrar que nem tudo é um caos que “um Manifesto de oito páginas não é, nem pretende ser, um programa de Governo. Foi um exercício minimalista e inteligente de sintonização de alguns ideais transversais aos mais diversos setores da sociedade portuguesa e de explicitação de graves preocupações amplamente reconhecidas e partilhadas” (Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Noticias, 14.03.15)

Por que será que mais pessoas, pensantes, claro!, com obra publicada e referências para além das saias da Alemanha, vêm a público dar razão ao Manifesto que 74 portugueses tornaram público?

quarta-feira, 19 de março de 2014

Dias de cólera


Tal como a China, a Rússia está a redescobrir a sereia do nacionalismo antiocidental.
Henrique Raposo, atual, 14.03.15

terça-feira, 18 de março de 2014

Reaprender a viver

Filmar a própria morte, no contexto de uma guerra, não salvará quem a filma, mas poderá impedir, no futuro, a morte de outros.
Cristina Margato, atual, 14.03.01
Joaquim Azevedo, consultor do Conselho Pontifico das Comunicações Sociais, escrevia há dias (14.02.19) que “a dita sociedade de informação é também a sociedade do encolhimento, do enviesamento e da desinformação”. E acrescenta que “os medos são agora explorados à exaustão pelos media e isso faz com que o real, os casos concretos e pessoas concretas não existam”.

Entre o filmar da própria morte e a exploração pelos medos que destroem as pessoas – concretas, pois claro! –, não acredito que alguém seja capaz de encontrar nos dias que correm motivos de felicidade. Seja onde for.
Calma! Motivos para atribuir à realidade que nos cega as razões de felicidade, devia ter acrescentado.
Sim!, no futuro todas as mortes já estão filmadas. E, afinal, é mais do que urgente percebermos que assuntos de família não morrem. Nunca. Nem mesmo nos ardores incontroláveis da pressa do imediato. Sim!, do direto.
Sim, no futuro todas as mortes já estão registadas.
Prontinhas a colocar na nuvem que nos invade com o spam malévolo.
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Onde estão Magno e a ERC?

Luis António Santos, a propósito dos “40 anos de liberdade de imprensa”, escreve no página 1 de hoje um texto fabuloso sobre a realidade da imprensa em Portugal. É de leitura obrigatória para quem se preocupa com as questões da liberdade, do jornalismo e da falha estrondosa do órgão presidido por Carlos Magno, um órgão que devia estar sempre a olhar para o que se passa no campo da comunicação em Portugal e que, por artes que só alguns conhecem, é um fantasma.


Destaco, com todas as vénias, este excerto: “O Estado (alguém sabe da ERC?) não quer estar em aldo nenhum e onde está por obrigação (RTP) faz tudo para se por de fora. Além disso (alguém sabe da ERC?) assiste sem pestanejar não apenas à entrega do controlo de grupos mediáticos nacionais a interesses estrangeiros, mas sobretudo, à concentração (alguém sabe da ERC?) desse poder num núcleo restrito de pessoas com ligações a um dos 25 regimes políticos mais corruptos do planeta (segundo a organização Transparency Internacional)”.

domingo, 16 de março de 2014

metamorfose conseguida

pronto a evadir-me. a noite – diferença
que une. trunfo motivador do regresso
perfeito da perfeição! respeito pelo silêncio.
há tantos corpos solitários. vidas sem espaço
muitos que morrem por causa da tua janela
sempre fechada; todos feitos extensão
de um corpo por inventar. ainda.

estou – finalmente – pronto. a evadir-me
relações apaixonadas e vigorosas?
isso só nasce de olhares entre pausas!
pausas nas brutalidades. outras realidades
figura truculenta de homem do mar. pronto!
vou evadir-me. tudo é sonho. os pés; paixões
cruzadas. estou pronto para algo radicalmente novo:
ler-te como uma melancolia ao fim de tarde.

sábado, 15 de março de 2014

Silêncio e mergulhos

Lembra-se de que Marcelo Rebello de Sousa chamou ao Cavaco «demagogo exímio»?
Augusto Abelaira, in Outrora Agora
Os do outro lado não me desiludem. Nunca. Por isso é que nunca alinho com eles. Os que nos pregam partidas são os nossos. E têm aquele sorriso sarcástico que ilude tudo e todos. São sempre iguais. Mas não hesitam mergulhar. Ainda que as águas estejam muito, muito poluídas.

Será por isso que Fernanda Câncio (Diário de Noticias, 14.02.28) escreveu: ”Disse Passos no congresso da risota, que no meio da pancadaria – a de Molière e a outra – com que nos mimoseia há dois anos e meio as últimas arrochadas, mesmo se mais fracas, podem doer mais que as primeiras”.

Não pode ser!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Palavras de artista

Nas câmaras, sendo uma pessoa honesta, não se ganha dinheiro.
Nicolau Breyner, Revista, 14.03.01



Que pretenderá dizer este artista?

O povo – ai o povo, que saudades! – sempre disse que cada macaco no seu galho.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Olhar da semana

É preciso ter muito pouca vergonha para que este Governo, que andou a tomar medidas que prejudicam a natalidade, venha agora dizer que este é um problema que tem de ser combatido.
João Vieira Pereira, Expresso (Economia), 14.02.08

olhando a cidade III

  O que ainda falta em Portugal é a presença vegetal. As cidades são muito cinzentas , especialmente na periferia. Sónia Lavadinho, consulto...