segunda-feira, 30 de novembro de 2020

certa graça ao discurso

dou à ignição. o carro arranca; funcionou

percebo que o veículo, como eu, já não

tem a mesma aceleração. o tempo é tremendo!

para os corpos; metálicos ou não!

depois – como sempre – aquele corpo velho

feito lata velha ruge; mas fica tão feliz!

 

sigo; sei lá por onde! mas sigo depois

o veiculo vestido com umas dezenas

de anos menos que o meu corpo acende

a luz; vai dizendo que está no fim; as luzes

são laranja. as minhas não têm cor; entram

nos exames de rotina, até quando?


 

domingo, 29 de novembro de 2020

Olhar da semana


Rio aqueceu o ovo da serpente. Ou o PSD se vê livre de Rio, ou Rio tentará ver-se livre do histórico PSD e erguerá um partido à sua imagem e semelhança, um partido instrumental e sem princípios, um partido antidemocrático e caudilhista.

Clara Ferreira Alves, E, 20.11.20

sábado, 28 de novembro de 2020

Heróis de verdade

 Parar de pensar em alternativas é que é mau.

Hiroshi Ishss, Público, 19.12.31

 

Há ironias e ironias!

Gosto; sempre gostei da ironia.

Nos tempos que correm violentamente castradores da liberdade, movimentação das pessoas – por necessidade de sobrevivência ou simplesmente para mudar de ares – e de criação, não deixa de ser irónico que duas pessoas nascidas num país, agora, cada vez mais castrador de liberdades, sejam heróis num país grande e aberto ao acolhimento.

Sim!, estou a olhar para o casal de médicos turcos, que cedo se deslocou para a Alemanha – os dois integram a maior comunidade imigrante daquele país – Özlem Türeci e Ugur Salim, que fundou a BioNTech e que – roubando o título ao semanário Expresso, revista E (20.11.20) – “eles vão vacinar o mundo”.

Haverá ironia mais perfeita para os dias chauvinistas que atravessam o continente europeu?

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

agarrar o tempo


encontro-te noutro retrato? – aparente leveza!

e nós? podes explicar-me o escopo

dessa penumbra na parede?

faz de mim a tua melhor visão; o desejo

 

alimenta-se em retratos reais – não aceleres

o sulco de mais uma ilusão; com a memória

da ausência a saltar entre as mãos! sabes

 

a tecnologia está a assassinar

as ligações humanas. sabes, pois sabes?

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Realidade agressiva

Cobrar mais lixo a quem toma mais banho é tão fácil quanto injusto, gera receitas, mas não, pelo que se vê, grandes protestos por parte dos cidadãos que não interiorizaram a injustiça porque nunca lhe foi devidamente explicado que, num sistema otimizado, talvez pudessem pagar muito pouco, uma ninharia, pelo tratamento de resíduos sólidos.

Abel Coentrão, Público, 20.11.20

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Atender às exigências

Ser político implica falar com as pessoas, ouvi-las e tentar suprir as suas necessidades.

António Rodrigues, Público, 20.10.23

 

1. Faz parte do ciclo normal da atividade politica local incluir no discurso programático a urgência de uma ligação ferroviária entre Guimarães e Braga. Nem sempre este discurso ou necessidade teve a correspondência das diferentes forças partidárias, escreve o antigo vereador eleito pela CDU na câmara de Guimarães Torcato Ribeiro (reflexodigital, 20.10.29).

Ontem como hoje o discurso repete-se e não ata nem desata esta sempre adiada ligação.

 

2. No final do século XIX e primeiros anos do século XX os projetos de ferrovia – que ligariam as sempre beligerantes cidades de Guimarães e Braga – eram como os cogumelos. Hoje os cogumelos têm sabores controlados e mais esmerados e são um grande negócio, mas também uma bela iguaria.

Esperemos, pois, caro Torcato que não tenhas razão; uma lógica pouco coerente por quem procura alinhar desejos à posteriori – depois de ignorar as oportunidades de os concretizar enquanto membros de partidos responsáveis pelos sucessivos governos da Nação.

Pelo menos desta vez, tomara que te enganes!

2.1. Mas estamos todos prontos e, agora – parece – que ainda mais desejosos de “apanhar o comboio”.

 

3. Convém, no entanto que a história se faz de muitas estórias. Tenhamos presente que também assim foi em 1865 quando a 27 de março, a câmara municipal de Guimarães deliberou solicitar às suas homólogas de Fafe, Felgueiras, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Póvoa de Lanhoso que estas “representassem ao Governo” para que Guimarães fosse “considerada ponto forçado nos estudos a fazer no caminho-de-ferro do Porto a Braga”.

Outros tempos! Que, na verdade, também só fizeram páginas curis ensoleiradas em jornais cada vez mais próximos das pessoas.

 

4. Convém também recordar que uns anitos depois (26 de dezembro de 1877) a câmara de Braga manifestou interesse em que a ligação por caminho-de-ferro até Chaves seguisse da sua cidade, pela margem do rio Cávado. Com o apoio das congéneres de Famalicão, Celorico de Basto, Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar e Chaves.

E, vai daí, a câmara Municipal de Guimarães decidiu diligenciar no sentido de que a ligação àquela cidade transmontana se estabelecesse com passagem por Guimarães e Fafe, continuando por Arco de Baúlhe e Vidago.

Caramba!

 

5. O comboio ainda chegou a Fafe, na verdade.

Importava valorizar uns terrenos em Paçô Vieira. Por ali morava um conde que ia dando grandes retoques nas cortes do reino.

O apeadeiro, cada vez mais moribundo, ainda por lá anda. Testemunha imóvel e moribunda da passagem dos muitos ciclistas que fazem a ciclovia de Guimarães até Fafe.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Batalha antiga

Talvez se possa dizer que a retórica é uma expressão do óbvio. E a boa escrita nunca pode ser óbvia.

Adam Zagajeaski, Expresso, 18.07.21

 

O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes – que nunca falou numa ligação em metro entre as cidades de Guimarães e Braga porque “em linha reta, há para aí 17 quilómetros” a separá-las “e, desses nove ou dez são o Sameiro”, diz –só admite aproximar as duas principais cidades de entre o Ave e o Cávado por BRT, como escreve Delfim Machado na peça que assina na edição do passado dia 18 no Jornal de Noticias. O pior, pode ler-se também no texto do JN – Estudo vai definir como Guimarães e Braga se vão ligar, é o título da peça – é que o senhor ministro não se compromete com tal ligação (por BRT – o “chamado metrobus”, autocarro em via dedicada). 

O que Matos Fernandes assume é o “desenvolvimento de um sistema BRT apenas para cada cidade”. E isso é uma solução mais de ao pé da porta, muito longe de uma solução de futuro na mobilidade entre centros urbanos de referência.

Ou seja, não há nenhum compromisso do governo do senhor Costa numa ligação não poluente entre Guimarães e Braga. Se havia dúvidas sobre essa ligação, o melhor é não vender o automóvel; mesmo que seja movido a motor diesel. 

Para poluir já basta a conversa de promessas sem fim; nunca cumpridas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Esperar todos os dias cansa


Subtilezas semânticas de uma vírgula pode ser um assunto tão interessante como a Cristandade, sobretudo se partirmos do princípio que o bom Deus – e não o Diabo – está nos detalhes.

António Guerreiro, Ípsilon, 19.07.11

 

Guimarães não vai ficar fora da alta velocidade, defendeu o deputado socialista eleito pelo círculo eleitoral de Braga Luís Soares na Assembleia da República, no decurso do debate da especialidade do Orçamento de Estado para o próximo ano. 

Assim o espero e, não duvido, também os vimaranenses.

Mas as dúvidas são mais do que muitas.


domingo, 22 de novembro de 2020

evidência da existência


não; não somos todos lideres; natos!

ao nosso redor tudo é uma tremenda trapalhada

– até nas redes sociais! que não dominamos;

não somos lideres. não! nem todos

 vivemos próximos da montanha!

 

a maioria de nós vive nas dores intensas dos dias

não continua a fazer de conta de que tudo acontece

como na escola primária. o tempo passa apressado;

esmaga! não se compadece das palavras

mansinhas de circunstância.

 

não; não somos todos somos lideres; natos!

sábado, 21 de novembro de 2020

Canções de liberdade II

A tragédia devolve-nos a verdadeira liberdade, um lugar onde podemos decidir entre o bem e o mal.

Angélica Liddell, E, 17.09.24

 

As diferenças do final de semana costumam ser substanciais; pelo menos no que à rotina e labuta diárias diz respeito.

Senti e vivi, nos dois últimos fins de semanas uma diferença acentuada no que a esta afirmação diz respeito. Duas manhãs de música, de uma música que ganhou corpo, propagação e asas a partir das noites intensas não é coisa habitual. Por isso o espanto lindo de José Nobre: nunca esperei dizer bom dia no Guimarães Jazz! 

Jazz de manhã? Foi estranho, mas depois das luzes se apagarem só a música deu vida a este alienígena modo de vida que é o confinamento por via de um ser microscópico e o ter que recolher ao nosso recanto. 

Em suma, duas manhãs de cultura, na minha cidade. A seguir virão mais manhãs de cultura, na minha cidade.

Com música, reflexão e participação. Mas – vinco, a música; sempre – a música a dirigir os anseios de espírito e do génio. Depois voltamos para casa.

Mas isso, já tínhamos sido avisado: voltem outra vez para casa. Fechem as portas e as janelas.

 

As janelas não fechei; a música continua a alimentar a alma. Desafiando o espírito sem máscaras.

 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

canções de liberdade

Foto: José Paulo Lopes (ComUM)

ouvir jazz no desadormecer; mesmo ao destruir

dos silêncios mais claros

revelou-se uma cena fixe; a música inalterável;

excecional e o silêncio da plateia – religioso!

 

o palco em cores e sons

fortes como os sons da noite

a música; o jazz

guimarães continua estranha; que bom!

 

som e mais som que se entranha

logo pela manhã. o palco em cores e sons

fortes como os sons da noite.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Liberdade e preconceito

O poder político funciona muito com base em duas coisas. No voto popular, ou seja, agradar à maioria, e nos favores ao poder económico.

Adolfo Luxúria Canibal, Ípsilon, 19.09.27

 

Será mesmo verdade que o gabinete de apoio à presidência da câmara municipal de Vila Nova de Famalicão exerceu pressão sobre um jornal local?

A acreditar no Jornal de Famalicão – o jornal mais antigo de Famalicão – terão existido “telefonemazinhos intimidatórios” por parte daquele gabinete municipal, uma situação que, diz aquele jornal, “é um hábito” “há mais de uma década”.

Por outro lado, e segundo o responsável pelo gabinete municipal famalicense, “é completamente falso que tenha existido qualquer tentativa de censura”.

Pronto! Os telefonemas, que se saiba, nunca fazem censura, mas chateiam. E impedem – tudo fazem, na verdade – um trabalho sério. Ponderado e isento.

O resto, sabemos bem como há proximidades, pressões e encontros à volta de uma boa mesa que limitam o bom desempenho de uma profissão que tem que ser séria para ser credível.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Aventura gélida


Se quisermos tirar partido da vida, é bom ouvir quem já viveu.

Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.10

 

1. O que quererá dizer o atual líder vimaranense do PSD quando fala de “unidade vimaranense politica”?

Confesso que não sou capaz de entender.

Sim!, percebo – todos vimaranenses percebem – que os tempos pandémicos que vivemos exigem de todos nós serenidade e unidade; caso contrário a luta contra um inimigo comum e altamente perigoso não terá sucesso.

Mas unidade politica, não! Não percebo.

 

2. Recuando no tempo encontrei algo parecido com o desafio do presidente da Comissão Politica do PSD vimaranense. Foi “um contrato com os vimaranenses”, no ano de 2013. Era um contrato que pretendia “repensar Guimarães” que, como se viu, os vimaranenses ignoraram.

Recuei ainda mais no calendário e achei um slogan quase, quase a desmentir a ideia de unidade – “mudar de vida já!” –, num desafio provocador: para quê mais quatro anos? Só que já em 2009, o PSD não colheu as simpatias dos vimaranenses.

 

3. Daí que por mais que procure sinto-me incapaz de perceber se de facto “somos todos Guimarães” ou se queremos mesmo uma “unidade vimaranense politica”.

Mas é, seguramente uma falha minha. Acredito que Bruno Fernandes terá uma explicação convincente. E se assim for, os vimaranenses entenderão as suas palavras e os seus desafios.

 

PS – Ah! No ano de 2017 o PSD queria manter os vimaranenses juntos por Guimarães. Também não foi capaz de fazer passar a sua mensagem.

Será que “unidade vimaranense política” vai ser o slogan laranja em 2021?

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Gestos mínimos

Hoje zanguei-me com um padeiro. O círculo está completo. A minha passagem para o inferno está garantida.

Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.06

 

O diretor do jornal Público escreve em editorial (edição do passado dia 12) que o PS sobe por vezes tão alto na propaganda da sua superioridade moral que arrisca estatelar-se com estrondo. Ontem aconteceu.

Fiquei intrigado.

Mas, continuando a leitura do jornal, percebi: Não sou fofinho com os tiranos, tinha afirmado no dia anterior o ministro Santos Silva, na Assembleia da República.

Pois!

 


 

olhando a cidade III

  O que ainda falta em Portugal é a presença vegetal. As cidades são muito cinzentas , especialmente na periferia. Sónia Lavadinho, consulto...