terça-feira, 27 de abril de 2021

rainha da noite

 


constróis uma roda; em círculo

à volta de ti. depois

 

o inseto ri. olhas outra vez e desenhas

círculos; cada vez mais curtos

 

o inseto ri e foge.

domingo, 4 de abril de 2021

Cabeças falantes

Estamos na cultura da pressa, um tempo de alta velocidade.

Carlos Poças Falcão, O Conquistador, 20.12.18

 

1. Tenho pela obra literária de José Saramago um carinho enorme.

Há livros que são referência. Neles incluo, por razões diferentes, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Levantado do chão ou Memorial do Convento.

Mas (toda) a sua obra é fora de série.

 

2. Num destes dias, imediatamente a seguir à releitura 1984, de George Orwell (as notas de leitura estão no mesmo bloco) peguei em 1993, de José Saramago, que nunca tinha lido e dei por mim a comparar as duas maravilhas.

Há alguma relação entre 1984, de George Orwell, um texto de 1949, e 1993, de José Saramago, de 1975?

 

3. Há uma cidade sitiada, em 1993 e mulheres presas e violadas e perseguições e contagem de habitantes.

Sendo certo que 1993 se integra na obra poética de José Saramago, para além de parecer existir um caminhar em direção aos grandes textos e narrativas que fizeram de Saramago Nobel da Literatura, podemos colocar em discussão com 1984?

A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas” ou “foi instituído o olhar da vigilância individual o olho que não dorme nunca” ou ainda “graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas vezes pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente”, são afirmações que podiam ser lidas nossa dois livros, não podiam?

 

4. Ah!, só por mera curiosidade: e comparações com a quinta dos animais?

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Cada vez há mais

Há quem pense que o exemplo das cidades durante a epidemia deveria ser uma lição e levar as autoridades a fazer com que as cidades, depois, um dia, fossem mais ou menos o que são hoje: desertas. Ou com uma beleza do silêncio dos cemitérios. Tanto disparate!

António Barreto, Público, 20.04.12

 

Reler 1984, de George Orwell, em tempos pandémicos e em confinamento faz-me pensar o que um qualquer Grande Irmão – independentemente do seu tamanho –, faz de cada ser humano o que quer. Brinque com os seus dias e as suas dores. E depois ponha na mão dos investigadores da verdade a certeza de que o final será igual a todos os outros: desolador; destruído pelos atropelos.

Ou seja, como do romance, esta afirmação de O’Brien: “toda a gente se cura, mais tarde ou mais cedo. Depois, acabaremos por te dar um tiro”!

Coitado de Winston!

 

É bem o retrato de uma humanidade esquelética, sob todos os pontos de vista.

É, não é?

Isabel Lucas (Ípsilon, 21.02.26) deixa-nos uma janela aberta muito interessante: [1984] continua a ser o livro que nos dedicamos quando a verdade é mutilada, alinguagem é distorcida e o poder é abusado, e quando queremos saber quão más ascoisas podem ficar.


 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

um outro olhar


supostamente distantes – com os olhares cruzados –

observo dois gatos; namorando. é noite.

não muito escura! ouço a coragem

 

da coruja que resiste a cantar

sempre perto de casa – costuma serenar os sinos

da igreja em frente

onde agora só se vê o relógio.

é noite. não muito escura

olhando a cidade III

  O que ainda falta em Portugal é a presença vegetal. As cidades são muito cinzentas , especialmente na periferia. Sónia Lavadinho, consulto...