domingo, 22 de dezembro de 2019

cartografia de intimidades


soará o silêncio; garantia de uma revolução
a pintar o futuro nas histórias de sobreviventes?
a chuva deu trégua; a paisagem
continua apática, sem respostas

sim!, meu amor, estou mesmo dentro
da nova revolução: tão digital, tão pronta
a isolar o desejo e as revoluções

a chuva cresce; esmagando a paisagem. tão apática!
o silêncio soou; outra vez – tantas vezes!
entre as perguntas do tempo que nos leva à deriva.
vestidos de fantasma

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

não fiques à espera do fim do mundo *



um ramo; verde
urtigas? numa vinha também
crescem urtigas!

o tempo responde: tens um pedaço
de papel no bolso –  tão próximo da encenação vaidosa!
regista o conteúdo do ramo

picos, veias altas

então o tempo tem razão: porque guardas
um papel no bolso?

é mesmo um ramo verde, não é?

* o relato do caos nascido de um enigma

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

demasiados herdeiros


tens razão! neste fim de tarde
quente – lá mais ao fundo; junto ao rio
entre a penumbra acinzentada – ouve-se o sabor
exótico da paisagem. é o ave; sim!

palavras em catarse – depois da catástrofe da última
cheia intensa, desfazendo campos e tanta beleza
verde. o tronco é enorme; bem largo
os banhos, muito mais velhos que a novidade
feita termas, ficam na penumbra. neste fim de tarde

a beleza continua a braços com o tremendo fantasma
da penumbra sem memória. tens razão!
há banhos quentes; mitigadores
pintados com a amarelecida luz; um homem
só. e a sombra de sabores pouco exóticos;
em catarse.

domingo, 8 de dezembro de 2019

À atenção dos sentidos



A maturidade é algo que temos de continuar a procurar, para que a nossa escrita não fique estagnada.
Luís Tinoco, E, 19.11.24


Leio com toda a atenção e fico enternecido com estas palavras de Bill Callahan (Ípsilon, 19.07.05): Ser pai abre-nos perspetivas. É como se nos abrisse uma porta que não sabíamos muito bem quem estava lá. Há uma atenção maior à compaixão, à ternura e à paciência.
Pois! É inteiramente essa a verdade dos dias que correm, não é? Procurar a porta mais suave onde a nossa ternura e a paciência e compaixão sem indiferença. Canções humanas em versão deslumbrante; reveladoras!
Grande álbum, caro senhor, este Shepherd in a Sheeskin vest

Por mim, hoje tenho a certeza, chegarei ao fim da rua.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

a mais alta torre


o mar enchendo o olhar, salpica os corpos.
no alto; bem lá no mais alto!
o sol, o nosso deus do olhar
foi a natureza que elevou em flecha
o pico: o centro do mundo

daqui; com tantas nuvens densas; o mar
ganhou contornos de mente irrequieta
é fogo intenso – pico com nome de lugar que já não existe
no meio do oceano; eterno protetor das alturas: ilusão dos melhores silêncios

o mar afogando os olhares; tonifica
as distâncias
é tão belo o anel de nuvens em volta
do pico!

não, não é olhar artificial. é o pico

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Violação sem precedentes *


Por cá, tivemos décadas de apostas e investimentos para tornar Guimarães uma referência cultural, que a todos nos orgulha, e em projetos de referência ambiental em grandes investimentos de diversa ordem. E Guimarães evoluiu muito.
Tiago Laranjeiro, Mais Guimarães, 19.11.27

* o tempo, meus senhores!, mostra-nos sempre o futuro.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

o futuro de frente (e muitos sorrisos)


clareira. olhar para dentro e as perigosas promessas?
não; miséria assombrada
por uma sensibilidade minimalista
não; apenas o corpo

mãos, bocas, concavidade, espaços crípticos
que guardam os segredos da história
oral, antes da escrita*

apenas o corpo; muito antes
dos rastos e dos restos – sob uma luz inspiradora


um corpo negro, longo.



* nuno faria

domingo, 1 de dezembro de 2019

Crentes cruéis


As pessoas que têm poder sentem-se acima das leis e dos homens.
Nicolau Santos, E, 18.04.14

Sublinhando em absoluto as palavras do diretor do mestrado em ciências das religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, José Brissos-Lino, também digo que não se acredita.
Então “uma educadora de infância numa escola pública da Madeira viu a diretora prejudicar-lhe a avaliação anual por se ter recusado a ir receber um bispo à igreja”?

Mas que vem a ser isto? Portugal não é um país laico?
Vinco as palavras de José Brissos-Lino na revista Visão (online): será que o tempo voltou para trás?
Infelizmente em muitos aspetos do dia-a-dias dos portugueses, isso é totalmente verdade. Mas, em questões religiosas, não tinha havido muitas notícias assim em modos de nos tirar o sono, pois não? Felizmente!

Ou será que a Madeira não é Portugal e não se rege pelas leis da República?


Nota de rodapé: aconselho vivamente a leitura das palavras do coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo na Visão ou no 7Margens (onde foi republicado).

olhando a cidade III

  O que ainda falta em Portugal é a presença vegetal. As cidades são muito cinzentas , especialmente na periferia. Sónia Lavadinho, consulto...