sábado, 1 de maio de 2021

detonador dos desejos


espaço da luz; instante

inquietante dos dias. ou apenas instantâneos

transparentes?

cores que iluminam a decência; também

o pejo.

 

a lua altiva não para de ofertar dádivas

aos perdidos.

todos temos uma história; no espaço

da luz

terça-feira, 27 de abril de 2021

rainha da noite

 


constróis uma roda; em círculo

à volta de ti. depois

 

o inseto ri. olhas outra vez e desenhas

círculos; cada vez mais curtos

 

o inseto ri e foge.

domingo, 4 de abril de 2021

Cabeças falantes

Estamos na cultura da pressa, um tempo de alta velocidade.

Carlos Poças Falcão, O Conquistador, 20.12.18

 

1. Tenho pela obra literária de José Saramago um carinho enorme.

Há livros que são referência. Neles incluo, por razões diferentes, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Levantado do chão ou Memorial do Convento.

Mas (toda) a sua obra é fora de série.

 

2. Num destes dias, imediatamente a seguir à releitura 1984, de George Orwell (as notas de leitura estão no mesmo bloco) peguei em 1993, de José Saramago, que nunca tinha lido e dei por mim a comparar as duas maravilhas.

Há alguma relação entre 1984, de George Orwell, um texto de 1949, e 1993, de José Saramago, de 1975?

 

3. Há uma cidade sitiada, em 1993 e mulheres presas e violadas e perseguições e contagem de habitantes.

Sendo certo que 1993 se integra na obra poética de José Saramago, para além de parecer existir um caminhar em direção aos grandes textos e narrativas que fizeram de Saramago Nobel da Literatura, podemos colocar em discussão com 1984?

A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas” ou “foi instituído o olhar da vigilância individual o olho que não dorme nunca” ou ainda “graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas vezes pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente”, são afirmações que podiam ser lidas nossa dois livros, não podiam?

 

4. Ah!, só por mera curiosidade: e comparações com a quinta dos animais?

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Cada vez há mais

Há quem pense que o exemplo das cidades durante a epidemia deveria ser uma lição e levar as autoridades a fazer com que as cidades, depois, um dia, fossem mais ou menos o que são hoje: desertas. Ou com uma beleza do silêncio dos cemitérios. Tanto disparate!

António Barreto, Público, 20.04.12

 

Reler 1984, de George Orwell, em tempos pandémicos e em confinamento faz-me pensar o que um qualquer Grande Irmão – independentemente do seu tamanho –, faz de cada ser humano o que quer. Brinque com os seus dias e as suas dores. E depois ponha na mão dos investigadores da verdade a certeza de que o final será igual a todos os outros: desolador; destruído pelos atropelos.

Ou seja, como do romance, esta afirmação de O’Brien: “toda a gente se cura, mais tarde ou mais cedo. Depois, acabaremos por te dar um tiro”!

Coitado de Winston!

 

É bem o retrato de uma humanidade esquelética, sob todos os pontos de vista.

É, não é?

Isabel Lucas (Ípsilon, 21.02.26) deixa-nos uma janela aberta muito interessante: [1984] continua a ser o livro que nos dedicamos quando a verdade é mutilada, alinguagem é distorcida e o poder é abusado, e quando queremos saber quão más ascoisas podem ficar.


 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

um outro olhar


supostamente distantes – com os olhares cruzados –

observo dois gatos; namorando. é noite.

não muito escura! ouço a coragem

 

da coruja que resiste a cantar

sempre perto de casa – costuma serenar os sinos

da igreja em frente

onde agora só se vê o relógio.

é noite. não muito escura

terça-feira, 23 de março de 2021

caminhos de intuição


           na escada; à direita

as máscaras ignoram os corpos

que circulam; aquecem

a luminosidade branca que as observa

fico com medo, tantos disfarces!

 

quatro máscaras fúnebres resignadas;

a escuridão da sala é perfeita – dois corpos

esguios; ainda há disfarces embusteiros

e deuses agressivos nas máscaras?

 

vi-te!, há instantes. não me reconheceste.

por detrás da máscara.

a quietude leva tempo a acomodar-se, não é?

domingo, 21 de março de 2021

Circulação incessante

O tempo do fim está aí, diante de nós, a assombrar-nos, e já não é apenas no plano existencial e metafórico: a frase anuncia a forma contemporânea do desastre, já não é “o deserto cresce”, mas a “extinção aproxima-se”.

António Guerreiro, Ípsilon, 18.11.09

 

1. Nunca dou nada por adquirido. E nos dias que correm as certezas não param de escassear.

Mas há, não se duvide, vontade, atitude e modos de olhar o futuro que fazem diferenças. Qua aquecem a frieza e a solidão dos dias.

Senti-o bem recentemente. E não foi, apenas, no décimo piso.

 

2. Rememorando – se é que um internamento se recorda –, a minha passagem pelo piso 10 há uma certeza que me fica: a solidão, a reflexão e o sentimento sempre foram ajuda fundamental que acertam o rumo da Humanidade.

Senti-me, por uns dias, um cidadão do mundo. Não pela dor e confinamento, mas pela real certeza de que nunca se pode viver só. E porque senti como importa refletir contra a agitação dos dias.

 

3. Quando, depois da passagem pelo décimo piso, voltei para casa confirmei essa certeza: a Zé – também ela infetada com o vírus mais conhecido dos dias que nos amarguram, embora com sintomas ligeiros –, foi também atriz de uma realidade que nos transportou a um palco diferente.

Não conheço o encenador da dor que criou a triste realidade covídica, mas conheço muito bem o palco dos dias que nos agitam sob as luzes cénicas; da vida.

Voltamos, pois, a ser atores! Tenho a certeza de que com interpretações ainda mais robustas.

 

Nota de rodapé: voltaremos a Melgaço, não tarda. Para mais um grande momento de nós.

Realidades feitas Epopeia IX

  Deem-me um boato e eu mudo de sítio o mundo. Gonçalo M. Tavares, in  O fim dos Estados Unidos  ( Relógio d’ Água )