quinta-feira, 11 de março de 2021

Chorar faz-se longe de casa

Estamos defronte de uma doença séria. As pessoas não se aperceberam imediatamente da gravidade do problema, que não é só das pessoas idosas. Nunca pensei que na minha vida iria encontrar algo tão parecido com os grandes problemas da II Guerra Mundial.

António Damásio, Público, 20.11.29

 

1. Com o tubo estreito que distribui o oxigénio pelas narinas introduzido no nariz parecemos astronautas que não se podem mover para muito longe da cápsula.

Por mim, neste décimo piso, não é muito grave. Tenho a janela de frente. Mesmo ali. É todo um mundo com novas visões.

 

2. Não sabes como colocar a ligação do oxigénio no nariz?

Aprende depressa.

Não há tempo para explicações. Pelo menos em tempos pandémicos.

 

3. Na enfermaria não és dono de ti; do teu tempo. Dependes sempre da qualidade dos profissionais de saúde; daqueles que dão tempo e qualidade ao teu tempo.

 

4. Entrar de madrugada na enfermaria, para seres internado, é entrar de gatas na vida.

O que vale é o olhar sobre Guimarães! E as vistas são fabulosas.

 

5. A máscara e a viseira tornam praticamente impossível a comunicação entre doente e equipas médicas.

Têm, as duas, uma (pequenita) vantagem: pode chorar-se; sem drama! Mesmo que exista uma cidade do final.

 

Depois de cinco apontamentos para refletir um internamento vale mesmo a pena observar os encontros imprevistos.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Bom pressentimento

Eu sou um grande fã de cidades. Sempre quis que elas fossem personagens dos filmes.

Woody Allen, E, 19.10.19

 

 06H58. E a lua já subiu na cidade.

Desde as cinco horas que acompanho o seu percurso.

Agora o céu aclarou.

Tem manchas vermelhas no regaço. A cidade continua calma.

É domingo. E já recebi a prometia visita clinica. O dia promete.

 

07H24 o céu mesclou-se de azul e vermelho. Que beleza!

 

A tarde, depois de um almoço que parecia saído das mãos de um chef de um dos restaurantes com marca, tornou-se nostálgica. Deu para ouvir Deep Purple (que bom ter alguma música na memória do telemóvel). É o que faz não ter intenet por estas bandas!

Mas sabe sempre bem recordar grandes bandas.

E no piso dez; enquanto olho a cidade até não se está mal.

 

Ah! Chorar faz-se longe de casa.

terça-feira, 9 de março de 2021

De surpresa em surpresa

[o vírus] mostrou-nos que a nossa agitação frenética ameaça o mundo. E voltou a colocar-nos a pergunta que raramente tivemos coragem de colocar a nós próprios: o que é que, na verdade, procuramos?

Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura, Expresso, 20.04 25

 

Guimarães acorda cinzenta.

Parecia, mesmo no raiar da luz, apenas uma neblina, mas, de repente, o céu assevera um dia triste.

As luzes já desapareceram; da Penha só uma cerração pesada a esconder os seus encantos.

Foi dura esta noite!

Mais sono por agora! É fundamental acalmar as entranhas espantadas pela agitação da noite.

Mas, assim de repente, parece-me que há por aí um bom pressentimento.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Luta dura


 

Há alguns indícios de que podemos vir a sentir-nos espetadores diferentes com os nossos corpos pós-pandémicos.

Isabel Salema, Ípsilon, 20.12.23

 

Não é bom ver alguém em desespero. E, confesso, há realidades desanimadoras, que só as tinha visto como cenas no cinema. Numa me imaginei perto da realidade que esses quadros dramáticos transmitem.

O que só dá razão à máxima: há realidades que estão mesmo ao nosso lado; muito mais próximas do que imaginamos.

 

Nesta na minha passagem pelo décimo piso acordei, não com uma cena de um filme, mas com uma realidade bem séria; ali mesmo ao meu lado. O ator forçado era um colega de enfermaria, no internamento, numa ação que se fez de um imenso alvoroço.

Nunca me imaginei a acordar com uma equipa de profissionais de saúde entrando em tanto rebuliço pela enfermaria adentro. Fecha-se a cortina e o som do oxigénio aumenta de intensidade. É final de domingo.

 

Ainda estivemos pelo décimo piso uns dias. Tive alta, entretanto, e acredito que tudo não passou de um valente susto. Por isso, meu caro C., vamos ver-nos por aí, não vamos?

 

Afinal, o passar dos dias, faz-se de surpresa em surpresa.

domingo, 7 de março de 2021

Espaço em volta


É nos cinzentos que se encontra muitas vezes a verdade.

Mário Cláudio, Minha, janeiro 2020

 

As nuvens daqui do décimo andar agarram formas belas; mais belas que as nuvens de todos os dias.

Umas, serão deuses para quem não vê que deus é uma criação do homem. Outras serão, seguramente, animais míticos e bélicos mais poderosos. Também essas assumem criações pias.

O que quer que sejam, aquelas formas sublimes sobre a cidade colocam-me na bandeja da felicidade um final de tarde fabuloso, extraordinariamente belo; cheio de luz.

Quem disse que um internamento, mesmo que pelo vírus dos dias que correm, não pode ser (para a grande maioria) um momento menos intenso, quando olhado pelo lado do desejo poético dos olhares?

 

Uma nota de rodapé: Não percebo por que há tanta gente a dizer que a comida no Hospital não é boa. Só quem faz questão em manter uma alimentação salgada é que pode dizer isso.

 

Ah! Virá, depois, uma luta dura.

sábado, 6 de março de 2021

Linha dos dias; subtil

Se perguntar o que é o amor, a ciência não sabe responder.

Carlos Fiolhais, E, 19.02.09


1. É sábado, sinto-me perdido e com a impressão de que toda a gente em todo o mundo sabe tudo sobre mim. Observa-me. Como eu que examino a cidade do décimo andar. 

Odeio os parvos, e são muitos, que cruzam a circular urbana. Como detesto, os outros, que, passeiam pelas ruas da cidade. Deve ser alguém para quem a palavra confinamento não existe.

Não os quero ver aqui. Aconselho-os vivamente as escutarem as palavras do António Durães, com aquela voz maravilhosa que não deixa ninguém indiferente, a dizer-nos como o vírus entra na festa.           

Equipa covid; na urgência covid – eu com frio e cansado, desorientado –, sossega o descontrolo que me faz perder o desejo de devir e sossega-me num repouso até ao internamento. Uma equipa (em trabalho seguido num conjunto enorme de dias) que foi dos grandes exemplos do melhor espírito de grupo e de trabalho em equipa que vi.

Tanta juventude por ali! Tanto empenho e tanto carinho!

2. Do meu lado, esquerdo – fui um felizardo!, fiquei à janela – mais duas pessoas. Já sei os seus nomes e as suas origens. Tal como eu, na paragem do tempo onde é costume mandar embora o vírus.

As Está a incansável equipa médica, enfermagem e auxiliar. Podem mudar de turno, mas a disponibilidade na ação, a atitude profissional, sempre atenta e carinhosa, estão sempre presentes.

Equipa covid; na urgência covid – eu com frio e cansado, desorientado –, sossega o descontrolo que me faz perder o desejo de devir e sossega-me num repouso até ao internamento. Uma equipa (em trabalho seguido num conjunto enorme de dias) que foi dos grandes exemplos do melhor espírito de grupo e de trabalho em equipa que vi.

Tanta juventude por ali! Tanto empenho e tanto carinho!

3.Pneumonia’ sempre foi uma palavra que me assustou; mesmo quando não a conhecia. Agora que a sinto bem dentro de mim e a chatear-me solenemente, descubro também a associação perfeita que faz dos dias com a beleza do caminhar: coragem. E então quando este ânimo vem de mão dadas com a motivação, as vistas da cidade têm outro encanto.

E dali do décimo andar!

Que dimensão de realidades belas! Como o deste final de tarde de sábado.

Com uma luz linda, diluindo-se no silêncio da cidade.

Vale, pois, prestar atenção ao Espaço em volta. Vem já a seguir.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Boleia segura

Para que um mundo melhor surja após esta pandemia, devemos abraçar e fomentar sentimentos de humildade e solidariedade gerados pelo momento atual.

Orhan Pamuk, E, 20.05.09

 

A comunicação sempre foi fundamental para aproximar as pessoas. E então quando se fala de quem nos é mais próximo ou que desejamos próximos, ela tem a importância de uma certeza: os amigos são sempre amigos.

Sempre soube disso, mas senti-o, de forma intensa e saudável, nos dias em que o vírus do momento resolveu tomar conta de mim; e deixar-me entre o confinamento caseiro e a cama do Hospital.

Foram imensos os abraços e beijos que me foram endereçados.

O telefone tocou muitas vezes, mas não atendi; a voz ainda não me deixava falar muito tempo.

As mensagens todas tiveram resposta. 

E foram muitas as missivas recebidas. Todas vestidas de sentimentos, traços que perduram. E deixam um calor forte que aquece por dentro.

Num critério muito pessoal deixo algumas:

·         Vai correr tudo bem, de certeza! E vai passar rápido.

·         Só para dar um abraço com muita força.

·         Um grande beijinho nesta hora. Sei que estás a melhorar o que me deixa descansada. E que estás a gostar da comida do hospital.

·     Espero que a sua estadia no hospital seja curtinha. Fico feliz que esteja a ser uma    experiência positiva apesar de tudo!

·    Muita força! Um dia de cada vez! Tantos anos a achar que a comida do hospital não prestava e afinal não é nada má!

·         Que vá embora rápido esse chato!

 

Por agora não tenho mais nada a escrever. A não ser dizer que vem a seguir Na linha dos dias; subtil.

 

Realidades feitas Epopeia IX

  Deem-me um boato e eu mudo de sítio o mundo. Gonçalo M. Tavares, in  O fim dos Estados Unidos  ( Relógio d’ Água )