quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Últimas ligações



Acabou!
Acabou mesmo tudo o que ainda me (nos) ligava à casa; a casa onde crescemos, a casa onde nos despedimos do meu pai.
Em cima da camioneta vai o que ainda restava do dia-a-dia lá de casa.

Bolas! A vida, às vezes, dá-nos cabo do canastro. E faz-nos transpirar num último esforço!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Na solidão, o lugar onde tudo começa



1. A propósito dos “mais de 300 somalis e eriteus que morreram em Lampedusa”, ou dito de uma forma mais realista, que ficaram caídos quase, quase a apanhar a ilha, José Manuel Pureza escreve (Diário de Noticias, 13.10.11) que “tem razão Francisco, o Papa. Esta é uma Europa da vergonha. Em nome de um suposto salvamento humanitário, junta-se de peito feito aos semeadores do outro lado”.


2. Os seniores dão dinheiro; os seniores são o futuro! E mantê-los na sua própria casa, inseridos no seio da família e com a maior qualidade de vida, é o futuro. Dá dinheiro e – fazendo de conta que temos os mais velhos ali mesmo à mão – dizemos acreditar na sedução; não na revelação! Não na dos sentidos, mas de uma realidade (que nos dizem que estava por inventar) que dá um lucro que assusta!


3. Entre os somalis e eriteus mortos na ilha e os idosos que dão – e darão cada vez mais dinheiro aos exploradores das necessidades humanas – pode (sublinho, pode) não existir semelhanças.


4. Infelizmente a realidade, nua e crua, é igual para quem procura sobreviver, trabalhando nas piores circunstâncias ou resistindo nos espaços de acolhimentos mais insensíveis.


Ponto final: nesta Europa da vergonha, de que fala Francisco e Beleza vinca, já não importa ser velho ou novo, importa mesmo é não desequilibrar as contas públicas.

Haverá por aí uma Lampedusa que me ajude naufragar?

sábado, 19 de outubro de 2013

a realidade mudou

grande ilusão; barrigas
crescidas e dilatadas. gordas
vontades

(sem ti como posso ter um amigo?
há soldados desfeitos; dores vermelhas
salpicando a noite fria. foda-se!)

missão secreta?
estupidez sobre a vontade de exibir
vaidades. barrigas crescidas – a matar.
grande ilusão!

(sinal de decadência
representação de nós? parvoíce!
sempre entramos em becos
onde os berros se vestem de negro)

a noite. o tango. silêncio frio
apressado. sobre o rodopio dos copos
adeus. que fim! grande ilusão!

iremos em frente?
como sempre. sem ilusões.

(sem ti como posso ter um amigo?
há soldados desfeitos; dores vermelhas
salpicando a noite fria. foda-se!)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A morte de um país


 Arrota pelintra e faz-te lorde!

ouvia há muitos anos um homem sábio que povoa, com intensa normalidade, todas as minhas memórias de criança.
Só recentemente, penso, ter percebido as palavras daquele homem que dominava a minha aldeia, onde o caciquismo do regedor ditava o futuro de (quase) todos nós. Ah! Ainda me lembro bem da matricula do carro que levou os meus pais à Casa do Povo da freguesia vizinha para votar pelo senhor general sem medo! como tantos outros também eles não voltaram às urnas até à revolução dos cravos.

O tempo passa.

(Outro tipo de pelintras toma conta do poder e do futuro. Os pobres estão muito mais pobres que no tempo em que o regedor da minha aldeia tinha sempre à porta um cacique; pronto a sair com uma tesoura e um lápis azul numa mão e um chicote na outra. Disponível para estampar a dor em qualquer rosto amargurado os desejos de emancipação e de construção de um futuro belo).

O tempo passou e o apoio do estado aos pelintras, pobres e desgraçados é uma fraude!

Tu não matas um porco (ainda que velho) para comer; as vontades de sobreviver estão esbatidas. Definitivamente. Assim é o dia-a-dia da Humanidade. Só as carnes mais rijas, porque jovens, alimentam os dias!
 
Por momentos pareceria a voz do regedor. Pior agoiro não podia acontecer! Mas o tempo passa. Infelizmente não era o regedor, mas o chefe de um estado à deriva e o seu primeiro

(cada vez mais parecido com o presidente do conselho do tempo do regedor)

a entrar pelos ouvidos adentro. Todos os ouvidos deste país sem rumo!

Que raiva ter alguns altifalantes sempre disponíveis a debitar decibéis de miséria!

Ao lado, no lar onde foi a casa do regedor, ouviu-se uma chuva de arrotos.
Os cheiros intensos cruzaram o ar. Saíram à rua. Discretos. Sabendo muito bem que por ali já não se vê o cacique pronto em entrar em cena. Mas o tempo passa e o ar é cada vez mais pesado. E os sons vestem-se de uma agressividade que já mata tantos e destruirá muitos mais.

E um país; uma nação e uma ideia de progresso e felicidade

(um povo)

morrerão.

Realidades feitas Epopeia IX

  Deem-me um boato e eu mudo de sítio o mundo. Gonçalo M. Tavares, in  O fim dos Estados Unidos  ( Relógio d’ Água )