grito — claro? — não: lâmina som que abre o sonho ao meio
erguido – não por mãos gastas. alicerces gastos
(cinza sobre cinza sobre cinza)
liberdade? vento frio a atravessar ossos
máquina cega a mastigar o que ainda pulsa
memórias? suspensas — presas entre espanto E riso
um intervalo que não fecha e depois outro grito
(severo, ardente, sem corpo)
esmaga os dias, esmaga a ideia de dia o que sobra
(não de nós, mas do lugar onde
estivemos)
eápsula de sabores? de odores?
cápsula oca, um eco aromático da pele
aragem quase nada
antes do incêndio
reaprender o nome
II
ruína repete ruína, liberdade repete ausência
frio
silêncio
um campo onde o espanto falha o riso
outro grito
(depois? antes? dentro?)
quente – demasiado quente – até o tempo ceder
dias em chamas, dias esmagados, dias sem superfície
o que resta?
o que resta do cinzento quando o cinzento arde?
aragem outra vez; agora corta, agora fere
olhares: grito dentro do grito
noite ferida. fecha a janela — fecha o visível
esconde o que insiste em não morrer sob a cinza.
há um fogo pronto a aprender a regressar
janela: não abre, não fecha; oscila e nesse intervalo
—
as coisas lindas de nós sobrevivem inteiras

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