quinta-feira, 8 de agosto de 2019

segredo envergonhado


olhar em escombros; intrigador – noturno no alto
da ponte avenida fria subindo ao lado da fábrica em ruínas
que canudo avermelhado e alto
é aquele?
tantos silêncios nas paredes mortas!

Vestidas de vidas misteriosas e uma família enigmática –
emancipando os corpos cansados! projeção de fantasmas
de vidas perdidas; agredidas entre aquelas paredes frias

olhar em escombros; resto de nada depois
de tantas inseguranças e angústias a fábrica?
não há nada; apenas uma longa chaminé ao alto

segunda-feira, 15 de julho de 2019

há que viver a realidade


marcham pela rua num passo branco
mãos a escaldar; mãos da cor da terra
é uma maratona alva de meditação: a guerra
das civilizações ganha força no mundo, sabes meu amor?
guerra sem fim; guerra ritual
guerra sem retorno

há guerras e magia negra na rua; sim
pessoas – tanta gente! – em vigília; outra arca
para abrir; há palavras desse lado
há palavras que salvam, mas há espetáculos degradantes.
expetativas degradantes. marcham pela rua
numa marcha branca; guerra de propaganda

domingo, 7 de julho de 2019

viver a angústia da pergunta


achas que existem astronautas prontos
a fazerem-se passar por arquitetos do futuro?
– sabes que os arquitetos do futuro
acabam sempre a desenhar casas mórbidas,
pois sabes? –

tens razão!
há astronautas felizes; distantes
no universo
brincando nos seus apetrechos simétricos
e fechados
gozando com a nossa solidão urbana – reino
da modernidade; dizem: cidade em movimento

lá de cima os olhares ignoram
moradores de silêncios
e de calmais dolorosas.

domingo, 30 de junho de 2019

lugar para ir e voltar

a religião é (por essência) intolerante; nunca
esquecerei a tua cara. memória congelada
leva tanto tempo a sua construção; não
leva?
a religião: trauma de luxo

tenho ainda comigo as melancolias de afinar o silêncio!
sim! a religião: anjos rebeldes vagueando
numa cidade maldita

a religião, não celebra o sonho. é incapaz

de colorir a lama das jornadas.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

em nome do amor


uma visão tremenda do inferno – a ajuizar a quentura
que se delineia sobre o caminho endurecido dos dias.
(vou despir as palavras sem estação! vou perder a memória do campo
e dos passeios a pé, enquanto respirava amores luminosos – as texturas mais sedosas do meu tempo longínquo)
vou lutar por um lugar na tua história – sem visões do inferno

não metas no saco da felicidade
o vazio e o silêncio; tu disseste
não metas o vazio
e o silêncio no saco da felicidade
contigo irmã escrita
não metas, está bem?, no saco
da felicidade o silêncio
e o vazio.
(o poder para comandar o amor da humanidade não nasce das pedras mornas
por cima da água fria)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

espelho do tempo

Quem de nós falará aos homens que hão de vir quando o grande clarão encher de luz e pasmo as nossas bocas?
António Gedeão, in  Poemas Póstumos
dois espelhos esperam por mim. frente a frente. não sei qual será o meu. nem sei, tão pouco, se são gémeos um do outro. mas tenho a certeza de que o tempo estava bom. e o empedrado das ruas ajudou-me imenso a decifrar os pensamentos que tinham perturbado o sonho e o sono das últimas noites.

o som da noite, aquele som quase sem som, de final de dia e com o tom preso à melancolia de partidas, ficou, de repente
(assim à velocidade inventada para fugir das coisas duras),
totalmente filtrado pela luz. uma luz forte, intensa e branca. que já desce, percorrendo devagarinho e com pés de lã, os espaços pequenos que se esvaziam em pequenas partículas brancas que rodeiam os espaços sem cor e capazes de esconderem os nossos corpos.
– o meu, estava completamente nu. tinha tanta vontade de pôr cá fora os desejos que me minam a vontade!

mas é sempre o mesmo compromisso: aceitar os corpos é aceitar a morte! palavra! e faz tão mal ao (nosso) desejo de crescimento e à (nossa) calma interior.

domingo, 26 de maio de 2019

gente disfarçada


em frente
o poder. estampado nas torres intensas; altas
tantas janelas!

a rua, vazia
e um porco circulando
entre livros por abrir. estão
empacotados. sim
lá longe, muito distante
vê-se o símbolo do estupor do hitler – odeio este olhar na europa!

o quadro nada pitoresco
com fundo lilás
existe

não; não fui nunca
pintor