domingo, 30 de junho de 2019

lugar para ir e voltar

a religião é (por essência) intolerante; nunca
esquecerei a tua cara. memória congelada
leva tanto tempo a sua construção; não
leva?
a religião: trauma de luxo

tenho ainda comigo as melancolias de afinar o silêncio!
sim! a religião: anjos rebeldes vagueando
numa cidade maldita

a religião, não celebra o sonho. é incapaz

de colorir a lama das jornadas.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

em nome do amor


uma visão tremenda do inferno – a ajuizar a quentura
que se delineia sobre o caminho endurecido dos dias.
(vou despir as palavras sem estação! vou perder a memória do campo
e dos passeios a pé, enquanto respirava amores luminosos – as texturas mais sedosas do meu tempo longínquo)
vou lutar por um lugar na tua história – sem visões do inferno

não metas no saco da felicidade
o vazio e o silêncio; tu disseste
não metas o vazio
e o silêncio no saco da felicidade
contigo irmã escrita
não metas, está bem?, no saco
da felicidade o silêncio
e o vazio.
(o poder para comandar o amor da humanidade não nasce das pedras mornas
por cima da água fria)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

espelho do tempo

Quem de nós falará aos homens que hão de vir quando o grande clarão encher de luz e pasmo as nossas bocas?
António Gedeão, in  Poemas Póstumos
dois espelhos esperam por mim. frente a frente. não sei qual será o meu. nem sei, tão pouco, se são gémeos um do outro. mas tenho a certeza de que o tempo estava bom. e o empedrado das ruas ajudou-me imenso a decifrar os pensamentos que tinham perturbado o sonho e o sono das últimas noites.

o som da noite, aquele som quase sem som, de final de dia e com o tom preso à melancolia de partidas, ficou, de repente
(assim à velocidade inventada para fugir das coisas duras),
totalmente filtrado pela luz. uma luz forte, intensa e branca. que já desce, percorrendo devagarinho e com pés de lã, os espaços pequenos que se esvaziam em pequenas partículas brancas que rodeiam os espaços sem cor e capazes de esconderem os nossos corpos.
– o meu, estava completamente nu. tinha tanta vontade de pôr cá fora os desejos que me minam a vontade!

mas é sempre o mesmo compromisso: aceitar os corpos é aceitar a morte! palavra! e faz tão mal ao (nosso) desejo de crescimento e à (nossa) calma interior.

domingo, 26 de maio de 2019

gente disfarçada


em frente
o poder. estampado nas torres intensas; altas
tantas janelas!

a rua, vazia
e um porco circulando
entre livros por abrir. estão
empacotados. sim
lá longe, muito distante
vê-se o símbolo do estupor do hitler – odeio este olhar na europa!

o quadro nada pitoresco
com fundo lilás
existe

não; não fui nunca
pintor


quinta-feira, 16 de maio de 2019

memória prostituída


a ternura das noites de luar morreu
na minha terra. secaram silvas e matagais
nas mãos ásperas do cimento. armado
em cores contagiantes da memória.

recordar a minha terra é sonhar a harmonia
vestida de cores nostálgicas.
viver na minha terra é naufragar
na fragilidade de traseiras de sucesso.

a minha terra cresce sobre as ruínas
dos pacatos sofreres de amores. esperados
ansiosamente ao luar. adornados
de sonhos que desenhavam a paixão.

a minha terra perdeu a virgindade
na loucura do crescimento
na luta inglória contra o vício fresco da alma nómada.


do livro "Matéria de Sonhos"

quinta-feira, 25 de abril de 2019

prisioneiro da liberdade


porquê os braços abertos – estampados – na parede? um corpo dependurado não é sinal de morte ou de prisão?
não compreendo a tua noção de liberdade. detesto a escuridão estampada na parede fria de cada noite.
se mexeres as mãos elas sangram. doem-te.
de onde vem tanto sangue?

alegra-me nesta data tão livre isto: liberta o teu corpo da parede. gosto de te ver de braços abertos, mas detesto a tua cara de sofrimento estampada neste dia tão feliz!
(seria por isso que a freira não matou o pai?)
percebeu depressa que não há nada de mais profundo e integrante do que o enigma da existência.
está explicado aquele sorriso amarelado; ironia bacoca!
ao fundo da nossa rua ouve-se a cigarra vistosa que ensanguentou todas as memórias.

gostava de ser como a água: com mais liberdade de movimentos. chegaria – muito mais facilmente – bem junto da porta principal do céu. onde a luminosidade é muito mais branca; sem tremuras, à tarde, e estupidamente pintada de azul, à noite.
                o último momento é um momento de liberdade.
parece-me reconhecer aquela cidade de sonho.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

residir na opressão da demanda


nós; amanhã? sei lá!
existirão astronautas prontos a procriar
passagens entre arquitetos do futuro?
– sabes que os arquitetos do porvir
acabam a desenhar
(eternamente)
casas mórbidas,
pois sabes? –
tens razão! só

há cosmonautas radiantes; remotos
no universo
– brincando nas suas munições simétricas; gozando
 com a nossa solidão urbana
(reino da modernidade; dizem:
cidade em movimento) –
lá de cima os olhares desconhecem residentes
de silêncios; de calmias amarguradas.