quarta-feira, 25 de março de 2015

O diabo anda à solta *

Há os preguiçosos e há os de boa vontade, boa coragem e músculos, que assuem que a força não é uma coisa que vem, mas uma coisa que se faz.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
As boas intenções que levaram à criação da Cresap [comissão de recrutamento e seleção para a administração pública], escreve Nicolau Santos (Expresso, Economia, 15.03.21) está a ser subvertida – seguramente porque, como diz o ditado, de boas intenções está o inferno cheio. E o diabo adora.
Ai a Cresp, a Cresp! Que deixa no mesmo sítio barreiras que matam tantos desejos!

* terá ele apetrechos a circundarem a bacia ou – como se diz aqui no minho, a barriguinha – que estão para além da irregularidade dos dias (que é como quem diz, do viver) prontinhos a explodir?

Olhar do silêncio III

É repugnante e um grave indício de degradação dos valores democráticos a banalização de uma cultura administrativa de profundo desprezo pelos direitos fundamentais e que perante o colapso de um sistema de proteção de cidadãos contribuintes apenas se lembra de cuidar do resgate e salvamento dos seus chefes e “eleitos”.
Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Noticias, 15.03.20

terça-feira, 24 de março de 2015

Uma sombra que afasta o fim de tarde

Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua conhecida.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
1. Há duas discussões avançando em lume brando – quase, quase prontas a arder em altas chamas –, fundamentais para Guimarães e para o seu futuro que têm o mesmo sentido geográfico: Caldas das Taipas.
Não teriam nenhuma importância, nem sentido de meta final (isto é, objetivo fundamental) e da afirmação de Guimarães no futuro imediato (muito mais que a longo prazo) se não fossem fundamentais.
A primeira tem a ver com a poluição do rio Ave. O mesmo rio que, pelos vistos, só está poluído a montante da captação da água que serve os vimaranenses. Coisas que passam pelos olhares sempre sem explicação! É que nem todos temos sistemas-sofisticados-de-ultraqualquer-coisa para justificar o que fazemos; e com pompa e circunstância!

2. A segunda, que esteve abafada pela primeira, é a fundamental. Está em causa tudo. O futuro de uma aposta que agora já o é, quando não o deveria ter sido (como é o Avepark); o futuro de um território, que devia ter tido um nó de autoestrada e não tem (devia ter sido contemplado aquando da discussão sobre a ligação Guimarães Braga, mas caiu no esquecimento para dar lugar a uma via curta), mas que, repentinamente é o cerne da questão que baliza o crescimento de Guimarães.
Vale a pena a esse respeito recorrer à memória e a intervenções na assembleia municipal de Guimarães para se perceber melhor tudo o que agora parece ter um valor que há anos não teve.
Sim, hoje, já não é possível ir pelo Arquinho até Silvares e à autoestrada, mas que, ali em Brito, ainda é visível o local onde seria a ligação, é. Infelizmente já não vale de nada. E falar nisso agora seria levantar fantasmas que não interessam para um concelho que tem a certeza que sem crescimento nunca virá o futuro, por mais verde que seja. E isso, esteve arredado das preocupações dos decisores políticos vimaranenses durante tempo a mais. Pelo menos desde 1998.

3. Se um rio limpo e transparente é fundamental para que Guimarães alimente condignamente a enorme vontade de ser uma cidade verde (estou certo de que tal vai acontecer) urge vincar que uma ribeira sem poluição também o é. Seja pelos atalhos do desejo da ligação a um centro de excelência, seja (mesmo) pela urgência de uma cidade limpa.

4. Curiosamente, ou não, as grandes agitações vimaranenses do momento vão na mesma direção: Caldelas e, mais concretamente, a centralidade que é a vila de Caldas das Taipas. Deve ser coincidência. Ou então há coisas que passam ao lado da normal compreensão humana. Pelo menos dos vimaranenses que, vivendo na cidade, nunca percebem por que carga de água os cheiros pestilentos que a atravessam valem uma peva em comparação com a grande grandeza da outra margem do Ave.

Olhar do silêncio II

foto: igor martins (global imagens)
Ainda só estamos na Quaresma mas já há dois cordeiros da Páscoa. Nenhum foi servido em sacrifício para limpar os pecados do mundo, mas por uma causa bem mais prosaica: passar uma esponja pelos pecados do Governo no caso da lista VIP.
Editorial, Público, 15.03.20

Frio lá fora

É necessário instalar o inimigo na tua melhor poltrona.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
Desde que me habituei a olhar para o que me rodeia, isto é, o que faz sofrer ou ficar feliz, há um nome incontornável nos meus olhares: Mário de Oliveira. A primeira vez que ouvi falar do senhor ainda vivia imbuído de uma certa carga colegial; momento solene em que deixou para trás o lado “enclausurado” da vida, momento solene que me provocou imensos desafios. Um deles era saber quem era esse tal de “padre Mário, o comunista” que agitava a igreja católica portuguesa, a partir da Lixa; aqui mesmo ao lado.
Obviamente a curiosidade daqueles verdes anos ia muito para além da realidade teológica-qualquer-coisa-com-que-se-sai-do-seminário. Ouvi, li e aprendi a respeitar Mário de Oliveira.
E respeito-o tanto que ainda hoje – tantos anos depois de seguir outros caminhos – sigo religiosamente o que escreve. Dá tanto prazer! Faz crescer. Alimenta as raízes interiores e avisa sempre: não podemos dormir na direção do altar da crucificação!
Pronto! Já chega. Reproduzo uma parte da sua crónica 165, de 15.03.18: