quarta-feira, 4 de março de 2015

Sabores com fúria

Só a esperança se agacha cega na luz
Ingeborg Bachmann, in O Tempo Aprazado
Afinal há mais uns milhõezitos para Guimarães; Guimarães e Famalicão.
(porque será que o que vem para Guimarães traz sempre atrelado municípios com a mesma coloração central?)
É verdade!, parece que a primeira informação sobre investimento das Estradas de Portugal estava incompleta.
Curiosamente, os 15 quilómetros de obras são na estrada de Brito a Vila Nova de Famalicão.
Ah! De Brito às Taipas – era só um tirinho – a rede ficava mais homogénea. Mas assim não se quis.
A geografia politica tem razões que a geografia dos territórios e das pessoas desconhece.

Urgência de realidades

Não vos enredeis, tímidas folhas
em vossas rosadas raízes
Walt Whitman, in Cálamo
foto: oinsurgente.org
Quinta-feira, dia 26 de fevereiro. 22H33. O meu telemóvel vibra. Era um SMS que entrava. Com remetente claro; sim porque agora recebe-se publicidade de quem nem se sabe quem envia! E com promoções!
Abro. Um longo texto. Que li e guardei; para mais tarde recordar. E confrontar com as ilusões que se vendem, como quem vende carros.
Não comentarei o que António Costa me enviou no seu SMS.
Mas, nesse início de noite – noite com uma novidade na sede central do partido socialista (eu escrevo sem receios por extenso) fazia-se a apresentação da grande moda do momento: um jornal online – percebi, ou melhor (re)confirmei que em politica nem tudo o que luz é ouro. Ou seja, nem sempre os oportunismos garantem vitórias.
Nesse início de noite recordei a verticalidade de quem, tal como prometido no calor das agitações feitas facadas, soube recolher-se ao silêncio de quem tem ideias de futuro. Estará agora a ver espalhanços e espalhanços que metem dó?
Nesta altura com enorme ondulação a percorrer tantas praias, outrora vazias, só lamento e receio muito o que aí vem.
Que não caberá em qualquer SMS; por mais longo que ele possa ser.

terça-feira, 3 de março de 2015

uma sombra que desfaz o fim de tarde

Não quero aqui ninguém. Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortali­dade, o meu espanto. Por mais que repetisse
- Um dia destes
não acreditava que o dia destes chegasse.
António Lobo Antunes, in Crónica do hospital
Sabes pai, hoje celebraríamos com a grande festa da tua presença; a tua presença. Tu não estás, nós bem sabemos; continuamos a celebrar; mantemos o que dissemos sempre.  Também sabes isso muito muito bem: mantemos o que dissemos no primeiro momento:
Queremos manter-te vivo entre os silêncios que vestem a tua ausência.
E não é que os silêncios se calaram para te mostrar? E levas companhia! E que companhia! nós sabemos.
O que ficou de ti? Tudo.
Só podia, não?

Fazer de morto

De noite os cabelos crescem tanto que neles se arranca a cabeça
crescem em cada pancada de sangue
Herberto Helder, in Do Mundo *
foto: record.xl.pt
Se quem assiste regularmente às sessões da assembleia municipal (AM) de Guimarães – haveremos de poder fazê-lo todos e em casa, pelos vistos – fizer de conta que Luís Cirilo, o antigo deputado na AR e ex-governador civil de Braga, comanda o grupo parlamentar do PSD na AM vimaranense, poderá dizer, sem medo de errar, que o maior partido da coligação de direita em terras de D. Afonso até sabe intervir nas reuniões da AM.
Infelizmente Luís Cirilo só lá vai às vezes.
E, quando vai, fá-lo de recados estranhos na mão que nada têm a ver com a sua postura habitual sobre as coisas de Guimarães. Necessidades de afirmação, será?
Mesmo assim, Cirilo está a léguas (para muito melhor, obviamente) da melhor forma de César Teixeira, atual líder da bancada laranja na AM de Guimarães.

(um parêntesis para fazer um mea culpa do tamanho do grupo parlamentar do PSD local para dizer que quando, há cinco anos atrás, escrevi que César era uma boa solução para o PSD vimaranense, me enganei redondamente. Afinal, e dando a mão à palmatória, sou obrigado a dar razão ao povo na sua infinita sabedoria: “nem tudo o que luz é ouro”).

Com César Teixeira o PSD de Guimarães perde brilho. O PSD não sabe o que quer, não diz o que sabe (e devia saber); não fala do que deve, mesmo que o seu líder parlamentar vá fazendo um esforço para, por vezes – às vezes –, dizer que o seu partido tudo faze por Guimarães.
E César, olhando na vertical do púlpito que sustenta os seus papéis e os seus olhares (sempre pomposos), baixando-se em direção ao chão que pisa, nada diz. Repete-se; vê-se perdido para esgotar o tempo (como na última sexta-feira) do seu partido e, quando devia responder, pergunta para não responder; porque nunca tem respostas, apenas perguntas pouco entendíveis.
O PSD de Guimarães, também na AM, precisa de outra liderança. E Guimarães e os vimaranenses querem ganhar.

* sou um incondicional leitor da poesia de Herberto Helder. Há imensos anos. Muito antes de ouvir falar, como ouvi na última sexta-feira na Plataforma das Artes em envelhecimentos apressados. O poeta sabe bem o que diz. E com ele deixa que as pancadas sejam silenciosas. 

Olhar do silêncio II

foto: dn.pt
Estamos mesmo num país onde violar a lei compensa. Pena que tudo isto aconteça porque também há jornalistas que se deixam utilizar por aqueles que deveriam ser os primeiros a zelar pelo segredo de justiça.
João Adelino Faria, Dinheiro Vivo, 15.02.28