terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Rochas fundas e a procura da luz

Os ditadores só usam canetas para assinarem condenações à morte.
José Saramago, in Alabardas
João Adelino Faria escreve um texto de opinião no Dinheiro Vivo (15.01.31) que justifica, só por si, a leitura daquela publicação. Por nada em especial, a não ser a realidade das pequenas coisas, como muito bem o jornalista da RTP sabe escrever. Ou seja, insignificantes insignificâncias que nos colocam os dias em dia na agenda por onde, cada vez mais, levitamos

Reparemos então:
Durante décadas, os governos quando queriam mostrar que estavam próximos dos eleitores e do povo tiravam as gravatas e faziam reuniões informais, às quais apareciam todos com roupas descontraídas. Trágico. Quase nunca resultou, pois quando despiam as faradas os ministros mais pareciam peixes fora do aquário”.

Quando olho em volta e vejo pescoços apertados em vaidades forçadas (sempre desfeitos depois das luzes quentes dos registos instantâneos) fico desconfiado.
Ah! A propósito: alguém já reparou como é a vestimenta dos ditos nas partes que não são visíveis nos ecrãs?

Tempo de enfrentar outra realidade

Do terraço deste café olho tremendamente para a vida.
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Jovens contrariam tendência de descida ténue do desemprego, que no mês de dezembro subiu para 34,5%, eis um dos ecos da imprensa do fim-de-semana.
Enfim! Se a esta realidade – tremenda para os nossos filhos – juntarmos a drástica diminuição no número de desempregados com direito a subsídio de desemprego estamos esclarecidos.
Por mim, infelizmente, estou.
Há muito que perdi todas as ilusões em que se emplastra todo em frente às câmaras e depois se esvazia sem conteúdos no silêncio dos gabinetes.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Balões da memória

Há os preguiçosos e há os de boa vontade, boa coragem e músculos, que assumem que a força não é uma coisa que vem, mas uma coisa que se faz.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
Diz o PSD vimaranense que a CIM do Ave devia liderar o processo de despoluição do rio Ave.
Como?
Será possível ignorar tantos anos de excelente trabalho que a Associação de Municípios do Vale do Ave, primeiro, a Águas do Ave, a seguir, e a Águas do Noroeste, nos dias que correm, fizeram e fazem na despoluição no vale do Ave? Ou seja, ignorar o investimento feito na região por sucessivos governos é fazer de conta que se sabe do que se fala; quando se devia vincar a bela realidade que é a melhoria da qualidade das águas da bacia hidrográfica do Ave.

Olhar do silêncio II

A chancelerina Merkel devia meditar na célebre frase de Kennedy: “os que tornam impossível a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta”.
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 15.01.31

Olhar do silêncio

A esmagadora vitória do Syriza na Grécia representa o grito de revolta de um povo a que, depois de terem tirado muito, estavam a tirar a esperança. (…) O Syriza e os seus aliados trazem para a mesa das negociações luvas de ferro e uma bazuca. (…) Ora a Europa, mesmo que desdenhe a ameaça, teme-a profundamente.
Nicolau Santos, Expresso (Economia), 15.01.31

domingo, 1 de fevereiro de 2015

como painel de aviso

Vamos matar para não sermos mortos?
Sobreviveremos aos holocaustos que não paramos de desenhar?
Viveremos com a morte debaixo da almofada do nosso desejo de futuro?
Viver ou morrer?

O povo habitua-se à arte! Com a crise, as artes estão pela hora da morte. Tu sabes que o segredo do senhor Beckett é a constante utilização das situações ilógicas, pois sabes?
Temos a mania de complicar o que é simples. Simplesmente por queremos ser o nunca fomos e jamais seremos; temos ferrada (em nós) a dor da nossa insignificância – insignificante afirmação dos dias. Tu sabes que o segredo do senhor Samuel Beckett é a permanente navegação pelo absurdo, pois sabes?
Temos desejos alimentados por vontades que não são e nunca serão os nossos

matamos, então,
para sermos o que nunca fomos? Sobrevivemos ao holocausto da dor da nossa insignificância. Vamos
viver com a morte sob a almofada
dos nossos desejos; alimentados
por vontades alheias

viver ou morrer?
assim? Samuel Beckett é que sabe!

nem todos estamos de passagem

Continuam a ser máquinas muito fechadas
os partidos
que apontam sempre os mesmos nomes; nomes ocos, vazios, curvados; sempre prontos a levar a cabeça à altura do tapete (para a sua engrenagem)

ou são, apenas a confirmação da ausência total de cidadania que eles representam?
os partidos
estamos todos ameaçados pelos exageros da noite fria.