terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Paisagem desconhecida

Ambos olham o intruso com desconfiança.
José Saramago, in Alabardas
Pelos números do Instituto Nacional de Estatística, mormente os anuários estatísticos regionais, Guimarães está mal colocado ao nível do salário médio mensal.
Bem sei que os últimos números são de 2012, mas ver que os vimaranenses têm salários (médio) de 823,45, euros atrás de Braga, Famalicão e, espasme-se!, Vieira do Minho, Amares e Terras de Bouro, não me agrada mesmo nada.
E o pior – sem bairrismos de qualquer natureza – é perceber que a diferença para Braga é de 159 euros e para Famalicão de 119.
Assim, e sei bem que esta realidade está muito para além dos poderes públicos (enquanto empregadores), não se augura grande futuro aos grandes movimentos que têm sido levados a cabo para fixação de emprego por terras de D. Afonso.

O problema é dos vivos

Todos os devaneios acabam um dia. É tão inesperado quanto inevitável.
Milan Kundera, in A Festa da Insignificância
O semanário Expresso não para de surpreender. Nem espera pela novidade dos outros; ele é a novidade.
E então a última edição! Excelente!
Consegue o feito (notável) de – editando-se a 1 de Janeiro (ainda não havia acordo ortográfico) de 1999 – ser capaz de antecipar o futuro; retratando os dias violentos que fazem baixar o ministro da solidariedade, emprego e segurança social.
Não é verdade?
Reparemos então no que Pedro Lima escreve nos Baixos (Economia) sobre o ministro da mota: “Pedro Mota Soares, não convenceu com o programa de estágios para maiores de 30 anos em empresas como forma de criar emprego, recebendo críticas de patrões e sindicatos; foi alvo de contestação devido à intenção de colocar cerca de 700 trabalhadores no regime de mobilidade especial; e ainda viu, uma vez mais, o Tribunal de Contas dizer que há falta de transparência nas contas da Segurança Social”.
Ah!, escreve João Garcia (Expresso, 15.01.17) que «no dia em que o Governo votou isolado, contra o parecer do Conselho Económico Social (que critica a politica económica seguida por travar o desenvolvimento), o provedor de Justiça não reconheceu haver “fundamento bastante” para a dispensa de 697 funcionários do Instituto da Segurança Social”».

O pior é que, seguindo à sua maneira as indicações do ministro, não falta por aí quem lhe queira mostrar vassalagem tentando fazer ainda pior. Repare-se em um ou outro despacho saído de Braga para Vieira do Minho. Distrito onde quem contesta, ou melhor, quem defende os seus direitos, é arrumado para os cantos. Muito distantes.
Ah! E não há quem, estando a cheirar o poder, vá dizendo que a luta em defesa da dignidade no emprego no Instituto de Segurança Social é só feita por uns tipos mais à esquerda?
Que bom que é para a alma poder ir lendo Milan Kundera!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Modéstia de um olhar

Os problemas havidos no Orçamento Participativo no município de Guimarães vieram revelar que as obras propostas no orçamento participativo não emergem da vontade participativa da maioria dos cidadãos mas de alguns empenhos em ver a concretização de uma obra que entendem ser boa para eles.
Manuel Ribeiro, Reflexo, janeiro de 2015

Inventar mudando

Novas tabelas de IRS só são válidas até às 19 horas do dia das eleições legislativas.
O Inimigo Público, 15.01.16
Escreve Nicolau Santos (Expresso/Economia,15.01.17) que “os mercados estão agora tranquilos com a capacidade de Portugal pagar os seus compromissos”, acrescentando uma justificação – quase escatológica – para tal realidade que, infelizmente, passa despercebida à maioria de nós: “valha-nos São Draghi para explicar isto”.

Não pretendendo (era o que faltava!) brincar com coisas sérias, como são os bolsos vazios dos portugueses e a estapafúrdia mania de que uns pretensos donos da verdade têm que que ser os desgraçados dos cidadãos (sem dinheiro e sem direitos) a pagar todos os males que bancos, banqueiros e gestores públicos vão deixando por resolver, até parece que a realidade apontada por Nicolau Santos não faz sentido. Faz!, e de que maneira!
Se não fossem as medidas que estão a ser tomadas, a partir de Bruxelas, e mais concretamente do banco central que comanda os destinos europeus, ninguém duvida de que o nosso destino era o estampanço contra o muro mais próximo ou a queda na rabina que surge a seguir aos muros que os tais donos do mundo vão criando.

Apesar deste aparente milagre de Draghi, e mesmo consciente do tom que o Inimigo Público utiliza, sou dos que acredita que, logo a seguir às próximas eleições legislativas, quer vença o senhor António Costa, quer continue o atual primeiro-ministro, tudo voltará a ser como nos dias violentos que matam cada vez mais pessoas sem recursos.
Não?
Por mim nem me passa pela cabeça fazer a experiência de verificar se é verdade.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sementes de choque

O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável.
José Saramago, in Alabardas
1. Eu sei; sei muto bem que daqui a pouco – quando as tábuas comprimirem o meu corpo antes do calor da cremação – todos; todos mesmo, sem exceção de qualquer natureza, vão esquecer a minha existência. Rápida e indiscretamente apagarão a minha entidade. Nem que para isso tenham que recorrer aos vampiros que adoram desfazer proximidades, amizades e harmonias.
Não falta muito. Sei isso muito bem! E sei também que brevemente – quando já não estivermos lado a lado – as tábuas frias, caindo sobre mim, apagar-me-ão de vez. As cinzas farão o resto.
O resto? Ilusões quentes que se desfazem quando o sol promete o infinito. Palavras de ocasião, estilo campanha porta a porta de políticos novatos ou outdoor sem significado ou com mensagens pesadas e imemoráveis.
É triste? É grave? É terrível?
Nada disso! Desde quando é que o homem político foi um homem de sentimentos?
Adeus!

Conto o tempo que me falta para a tua idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Trento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.
José Luís Peixoto, Visão, 14.10.23

2. Tu que sempre estás ao meu lado sabes que vamos continuar por aí, pois vamos?
Tu que sabes como há vampiros e uns parvos que nos dizem que a vida é já ali! E sabes (sabemos) como enganam.
Nós sabemos que amanhã vamos abraçar-nos. Longe, bem longe do barulho que empurra os corpos para as tábuas frias.