domingo, 30 de novembro de 2014

a grande ilusão

estou velho. ultrapassado; fora do tempo
com a mania de manter convicções acesas
continuo – cada vez mais – arrependido
pelo que não fiz. gosto de ver o areal da praia
vestido de pescadores. gosto de misturar as escadas
do poder na fé dos encontros. mania que tenho – é motivador
estar onde está a razão – de esmagar cinismos
sem limites. mesmo que as cores pareçam
muito iguais. mania que tenho de olhar o areal
da praia vestido de pescadores sempre prontos a enfrentar
a ondulação mais perene.

temo que para além das rotinas da sobrevivência não queira
mais nada – convicções acesas? – temo perceber que gastei energias
feito palhaço em palco só de festejos baratos; ocos. a amarga
vitória da alucinação e miragem. estou velho. estou
onde estou. com convicções
assanhadas. acesas.

sábado, 29 de novembro de 2014

Falta pouco?

 
Sabes?, há gente que vai ser completamente cilindrada dentro de poucos momentos
                  e anda por aí a fazer de conta que agora só pode elogiar o que durante um tempo descomedido trucidou.

Sabes? há gente que, querendo continuar o que condenou com arbítrios escondidos durante os últimos tempos,
                 agora está convencida de que pode atirar para o canto do silêncio, da indiferença e do faz-de-conta 
tudo o que foi fazendo contra aqueles que lhes escapavam ao controlo dos                 caminhos; antes de descobrir as artes de uma porta que ainda decide futuros.

Sabes? claro que o desejo de afastamento do grupo que muito bem conheces sobe a cada dia que passa.

                                               Quem quer ficar onde é assestado contra a pouquidade?

Captar o presente

O mundo humano quis introduzir, é certo, um certo lirismo em certas equações, mas o que sucedeu foi o inverso: o lirismo como que ganhou o vício da contabilidade: quanto sofri?
Gonçalo M. Tavares, Noticias Magazine, 14.11.23
foto: ladislauleal.com.br
Na mensagem que o papa Francisco deixou na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Roma, destaco duas afirmações no meio de um excelente discurso. Os dois perfeitamente atuais, mas com leituras muito para além dos dias.

A primeira – «numa sociedade individualista e submetida às lógicas do mercado perde-se a solidariedade e as consequências são para todos, até para a “nossa irmã e mãe terra”» – não deixa dúvidas. Aquilo que era (só) do domínio de uma forma diferente de olhar os dias, serve todas as religiões, partidos, formas de governação; seja em que parte do mundo for.

Seria interessante que o responsável máximo da Segurança Social em Braga, Rui Barreira, lesse, pensasse e agisse com base nesta afirmação do máximo responsável do catolicismo: 
"o faminto está ali, na esquina da estrada, e pede direito de cidadania, pede para ser considerado na sua condição, para receber uma alimentação de base sadia”.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Há casa presas por um fio

Guimarães é um concelho sui generis. Sabíamos todos. Grande sinal da evolução do poder local.
Infelizmente também o é por razões bem piores. E portuguesas, do tipo banco da escola; diz-se que é um xico-espertimso, que se faz passar por dono da verdade. Não conheço esse do banco da escola, mas conheço realidades violentas. Como as que o Jornal de Noticias dá título: “casa por um fio após queda de muro”.

Sem brincadeiras, Aldão é mesmo ali onde dizem, terá acontecido uma certa batalha que rasgou horizontes de futuro, não é?
Corte-se o mal pela raiz e, à boa maneira do sítio, chame-se os bois pelo nome e evite-se, de vez, a ruína total que paira em muitos outros recantos do concelho.
É muito simples. E tem nome em português: fiscalização. Sem contemplações.

Desalento dos dias mais frios

António recebe o Rendimento Social de Inserção (RSI). A renda que tem para pagar leva o RSI quase todo.
Leonor (nome fictício), tem 16 meses e está sentada no seu carrinho de bebé. Bate palmas e ri-se, fala muito no seu dialecto próprio.
Manel (nome fictício) (…) um ano a trabalhar como jardineiro, com garantias, promessas, mas sem rendimento fixo.
foto: rr.sapo.pt
Podia continuar a ler o excelente trabalho “tive fome e deste-me de comer”, publicado no suplemento do Diário do Minho, Igreja Viva, mas não. Dói-me demasiado a alma. 
Assusta-me tudo o que possa dizer ou escrever a seguir.

Sei que tudo, mas tudo o que se passa e que a reportagem relata, se passa, “poucos minutos das 19H00” “no centro de Braga” num “local com pouca iluminação” e onde “alguns vultos deambulam impacientemente”.
Sei também que tudo isto acontece em Braga onde um todo-poderoso Rui Barreira se vai esquecendo da sua pertença a um catolicismo que denuncia esta realidade. Como devoto deveria saber de cor o que um tal de Mateus escreveu (Mt, 25, 35).
E sei que tudo isto acontece onde o responsável máximo da Segurança Social vai fazendo tudo para mandar para casa pessoas que tiveram uma vida de labor intocável.