quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

princípio imperfeito



devia fazer o que penso; não ficar à espera
do anúncio vistoso que faz brilhar em cena triste
não faço transparências opacas! não delibero
os medos da fragilidade sem experiência.
devia fazer o que penso; olimpo à medida
dos exageros em que deixamos suportar
a revisitação da memória; a mexer no interior
leve só por um dia a saga continua
ao meu ritmo. eu não me confesso
na esquina de um filme contemporâneo
– elenco no gelo – devia fazer o que penso
tornar-me árbitro de milícias à solta

vou. Sem anúncio vistoso no olimpo
há uma onda de violência a entrar nos corpos
da noite – sempre livres –  espanto de espírito
faço o que penso. outra maneira de revisitar
a memória devia fazer
o que penso? sim! é a tolerância
máxima que abre pendentes na subtileza
do desenho que nos mostra caminhos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Transparência opaca

No século XXI, não há lugar para o ódio, seja de que tipo for, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a propósito do arranque dos jogos olímpicos de inverno.
Que belas palavras!

Desejos e vontades que todos; acredito mesmo todos – e não QUASE todos, como alguns gestores políticos de mesmo, mesmo ao pé da porta, dos dias que nos matam –, gostaríamos que fossem uma realidade a perpassar os noticiários e as boas novas de todos os dias.

Infelizmente o que vamos vendo não corresponde a este desejo do máximo responsável das Nações Unidas.
Olhemos, por exemplo, para estas palavras sentidas de Francisco Assis (Público, 14.02.06): “a tragédia do tempo presente não radica na existência de representantes e dirigentes políticos demasiado distantes do pulsar popular, mas antes na rarefação de políticos suficientemente corajosos para assumirem, com a devida ponderação, algum distanciamento critico face à ditadura do imediato e do falsamente evidente”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Outra maneira de ver

foto: rtp.pt
Pensar o pós-troika é muito mais do que pensar como se vai Portugal financiar depois de maio. (…) o que já sabemos é que vai ser um país mais pobre, com menos trabalho e com menos capacidade de responder aos desafios do nosso tempo. é isso o pós-troika.
José Manuel Pureza, Diário de Noticias, 14.02.07

Não sendo conhecedor de como se gerem os recursos humanos parece-me óbvio que nem tudo o que diz respeito ao desenvolvimento do país e, naturalmente, ao seu crescimento, tenha que passar pelo vazio doloroso que é o crescimento do desemprego. Daí que, subscrevendo as palavras de Fernando Madrinha (Expresso, 14.02.08) – “o que existe, e pouco, é um emprego de novo tipo, que corresponde ao ideal da troika e do Governo para Portugal. Resultado do empobrecimento geral e é retribuído como uma esmola”, me pareça que o que aí vem, para além de não ser nada, mesmo nada bom, nada vai ter a ver com melhor ou pior formação ou requalificação das pessoas.
Infelizmente!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Olhar ponderado

O jornalismo entrou nesta história [acontecimentos na praia do Meco] aos trambolhões, mas já estaria na hora de se recompor. (…) o jornalismo está a lidar com a tragédia do Meco produzindo mais ruido. Corre, também aqui o enorme risco de as pessoas começarem a preferir o silêncio.
Luis António Santos, Página 1, 14.02.03

sábado, 8 de fevereiro de 2014

conversa maior

no coração do ai passou (por nós) um cão
(mostrou menos do que palavras)
mordeu a tua perna – não te enerves; a crescente
volatilidade corrói todas as lacunas
da história e a cor do que não vemos.
tem calma! a seguir ouvirás: não suporto
ser observado por homens!

desde ontem há um cão que merece ser ouvido!
passou por nós; à noite – atrás das palavras
no coração do ai. não o vimos, cegos
por uma realidade cada vez mais fragmentada.
o cão farejou: uma caixa de metal
onde os sonhos funcionam como gatilhos
ouviu tretas solenes sobre democracia!
sabia bem por que abria os dentes: toda a gente
tem certezas; a sobrevivência não é morte no paraíso

o calor das fogueiras faz-se de narizes
à solta. rumos e ruídos. no coração do ai
onde passam cães. devolvendo os dedos
às mãos; reinventando o toque de um corpo
consagrado à verdade. às palavras com alma.

há pessoas cruzando a cidade improvável
onde os sonhos andam à roda com a dança da feiticeira
destruidora do poder da convicção.