domingo, 13 de setembro de 2015

Geração sem grilhões

Se chovesse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos
Mia Couto
A noite está bela, João! Que mania que tens de dizer que a felicidade só pode estar junto dos teus amigos…
Algumas pessoas, bem sabes!, andam irritadas; procurando conflitos. Fica bem longe delas; a batalha que eles querem travar não é contigo (nem comigo, ou com a realidade que nós conhecemos bem) é com eles próprios.
Sabes que uma delas – belo almoço, João!, que tivemos na margem sul do Tejo! –, quer ser primeiro-ministro do nosso país? É teu amigo, bem sei; também o conheci, mas, como bem sabes, não simpatizamos (logo) um com o outro. Nada! Jamais poderíamos estar lado a lado. Muito menos depois daquela bela refeição proporcionada por ti na margem sul do Tejo!
Todos caçamos um deus para a nossa vida, bem sabes! Somos capazes de tudo; de tudo o que imaginamos, de tudo a que nos propomos…
Não divagues, João. Antes do teu amigo mostrar aquela faca parva, doentia com que matou o meu amigo – também sei João, que achavas o meu amigo mais betinho do que o teu –  para agora quer ser primeiro-ministro. Vá lá João…
Sabes?, os nossos amigos só têm o primeiro nome em comum. O resto nada tem a ver connosco.
A diferença – e tu bem sabes, João –, está na facilidade com que o mais seguro da vida sempre olhou para o humano – algo João, que nos aproximou – que fez de nós os amigos que somos; nós que estamos agora a centenas de quilómetros de distância. Desculpa, João, mas sabes muito bem, porque nos conhecemos à brava, que o teu amigo está parvo, vestido da facilidade da ganância, do frete vítrico e comezinho. Só quer manter os compadrios…
Mantenho, como bons amigos que somos, um ouvido no início de uma longa história; mesmo que a noite já não recorde silêncios macabros.
Pronto; não continues João com a facilidade do ar (gosto muito do Eugénio de Andrade. Ah!, pois é, e tu. Por hoje só posso deixar-te aquele abraço; um abraço, sempre mo disseste, que nos leva para além das ilusões). Respeito, como sempre, a nossa amizade. Admiro o teu silêncio, nesta altura em que o teu amigo quer ser primeiro-ministro do nosso país. Coitado! Já quase não sabe onde pousar o seu desejo louco. Manterei outros silêncios, João, mas, bem sabes, não quero que o teu amigo seja primeiro-ministro.
Fica bem; há ausências que são um bom sinal.
Abraço João. Quando voltamos a almoçar no outro nosso amigo da margem sul do Tejo?

Sem comentários: