domingo, 27 de setembro de 2015

Descoberta do mundo

O Pantagruel imaginado pelo Teatro Experimental do Porto e pelo Teatro Oficina é um delírio à mesa (…) para pensarmos sobre o poder e violência.
Samuel Silva, Ípsilon, 15.09.18
foto: diogo baptista (publico.pt)
1. Celebrar dez anos de vida é importante. Olhemos para a alegria das crianças quando atingem a primeira maioridade! Ficam extraordinariamente felizes, não é?
E então as instituições? É sinal de vitalidade!
E se for um centro cultural? Dez anos é vitalidade; criatividade e certeza de barriga cheia, exagero meu, não é?
Que importa ter a barriga cheia se ela só lá tiver pó bafiento?
Pronto; já chega de introdução.

2. O espetáculo Pantagruel, que estava pensado para o jardim do Centro Cultural Vila Flor, mas que o tempo que esteve no início da semana obrigou a que o espectáculo tivesse que migrar (que palavra!) para os bastidores do palco do grande auditório, é um espetáculo. Oh! Se é!
Tudo se passa em 2050, num tempo que, não estando longe, vai ser o que já e e sempre foi, mesmo que Pantagruel seja da autoria do senhor Rebelais (que viveu de 1494 a 1553).

3. Excelente adaptação de Rui Pina Coelho que “respeita – tanto o teatro pode respeitar o excesso pantagruélico – a estrutura narrativa de Rabelais”.

4. As interpretações de Ivo Alexandre e Marcos Barbosa são, assim, a cereja no cimo daquele centro; uma bela refeição servida enquanto nos brindavam com interpretações excelentes. Que mania que vocês têm de trazer o senhor Karl Marx para ali, tão discretamente, isso é descoberta de (outros) mundos. E que coisa estranha ouvir o senhor Pedro Passos Coelho a querer fazer-nos comer! Isso não descoberta de outros mundos; não, é realidade que estrangula. Ver Marcos Barbosa a distorcer sons melómanos em certos concertos não lembraria ao diabo! Mas a verdade é que se o responsável pelo Teatro Oficina faz isso e muito mais numa excelente interpretação.
É extraordinário; este Pantagruel.

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