quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ainda é abril

A memória do 25 de abril é matéria do património coletivo que há que interrogar sobretudo em termos ideológicos e de representações.
Augusto M. Seabra, Ípsilon, 14.03.28

Dizia a escritora Lídia Jorge (Ípsilon, 14.03.28) que o 25 de abril era “algo essencial e que cobria” a sua vida literária. Gosto deste olhar. Ou dito de outra forma: adoro este enredo. Só pode dar em grande obra. É um dos lados belos olhar a revolução.

Sem pretender por em causa as palavras de Francisco Fanhais – “não, não é esta a terra da fraternidade. Por isso se impõe um combate cívico e cultural que é responsabilidade de todos e de cada um” –, muito pelo contrário, até porque a realidade que Pedro e Paulo (os senhores que servem de balcão de receção aos endominhados da troika) matam os desejos de futuro e isso não pode acontecer na terra da fraternidade, entendo que nos dias que correm; com cada vez mais elogios da guerra e dos conflitos, urge voltar ao regresso da primavera. Importa olhar o futuro pelos olhos dos que o depositaram nas nossas mãos.

Isto é, tal e qual como o teólogo Henrique Pinto (SNPC, 14.03.19): “se há 40 anos foi imprescindível dizer não ao fascismo e defender a vontade popular, o exercício da liberdade e da democracia, hoje, diante de um total desrespeito pelos valores de abril, urge, por um lado, dizer não às partidocracias, aos parlamentos sem povo, aos interesses de famílias e grupos instalados no serviço público”. Hoje um nome pomposo; os senhores que supostamente nos apoiam; e a seguir, nos cobram uns juros violentamente altos!

Palavras intensas! Palavras que, até prova em contrário, acredito que não entram nos ouvidos da presidente do parlamento do meu país. Daí que, ignorando por completo que a casa da democracia do país onde gostaria de continuara a ser feliz, tem a gerir os seus destinos alguém eu se esconde noutras realidades, só posso mesmo vincar as palavras de Miguel Sousa Tavares (Expresso, 14.04.12): “e pensar que tudo isto foi mesmo a sério e que vamos todos juntos celebrar o 25 de abril”.

25 de abril? Já.
A tropa continua em frente ao Tejo pronta a disparar (ainda que com uma pequena diferença entre Marcelo e Passos: Caetano teve um general que o levou para longe).

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