quarta-feira, 25 de março de 2015

Relíquia futura

A prudência manda que no passado só se deve tocar com pinças, e mesmo assim desinfetadas para evitar contágio.
José Saramago, in Alabardas
foto: cm-guimaraes.pt
Uma equipa da Universidade do Minho (UM) considera que a melhor forma de melhorar o acesso rodoviário ao parque de ciência e tecnologia de Guimarães, Ave Park, é a criação de uma nova via rápida dedicada”, pode ler-se no jornal Público do passado dia 16 .
Sublinhe-se: “uma equipa da Universidade do Minho”.
Olhando para aquela equipa há um denominador comum: José Mendes, vice-reitor da UM, responsável por UM Cidades (uma plataforma da Universidade do Minho), e até à alteração da situação anterior, ou seja, da mudança funcional daquela estrutura de referência em Guimarães, no país e no mundo, presidente do conselho de administração do Avepark.
Coincidências. Seguramente.
Uma nota de rodapé: habituei-me a ter o maior dos respeitos pelo excelente trabalho desenvolvido pela Universidade do Minho; hábito que, óbvia e naturalmente, manterei.

O diabo anda à solta *

Há os preguiçosos e há os de boa vontade, boa coragem e músculos, que assuem que a força não é uma coisa que vem, mas uma coisa que se faz.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
As boas intenções que levaram à criação da Cresap [comissão de recrutamento e seleção para a administração pública], escreve Nicolau Santos (Expresso, Economia, 15.03.21) está a ser subvertida – seguramente porque, como diz o ditado, de boas intenções está o inferno cheio. E o diabo adora.
Ai a Cresp, a Cresp! Que deixa no mesmo sítio barreiras que matam tantos desejos!

* terá ele apetrechos a circundarem a bacia ou – como se diz aqui no minho, a barriguinha – que estão para além da irregularidade dos dias (que é como quem diz, do viver) prontinhos a explodir?

Olhar do silêncio III

É repugnante e um grave indício de degradação dos valores democráticos a banalização de uma cultura administrativa de profundo desprezo pelos direitos fundamentais e que perante o colapso de um sistema de proteção de cidadãos contribuintes apenas se lembra de cuidar do resgate e salvamento dos seus chefes e “eleitos”.
Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Noticias, 15.03.20

terça-feira, 24 de março de 2015

Uma sombra que afasta o fim de tarde

Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua conhecida.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
1. Há duas discussões avançando em lume brando – quase, quase prontas a arder em altas chamas –, fundamentais para Guimarães e para o seu futuro que têm o mesmo sentido geográfico: Caldas das Taipas.
Não teriam nenhuma importância, nem sentido de meta final (isto é, objetivo fundamental) e da afirmação de Guimarães no futuro imediato (muito mais que a longo prazo) se não fossem fundamentais.
A primeira tem a ver com a poluição do rio Ave. O mesmo rio que, pelos vistos, só está poluído a montante da captação da água que serve os vimaranenses. Coisas que passam pelos olhares sempre sem explicação! É que nem todos temos sistemas-sofisticados-de-ultraqualquer-coisa para justificar o que fazemos; e com pompa e circunstância!

2. A segunda, que esteve abafada pela primeira, é a fundamental. Está em causa tudo. O futuro de uma aposta que agora já o é, quando não o deveria ter sido (como é o Avepark); o futuro de um território, que devia ter tido um nó de autoestrada e não tem (devia ter sido contemplado aquando da discussão sobre a ligação Guimarães Braga, mas caiu no esquecimento para dar lugar a uma via curta), mas que, repentinamente é o cerne da questão que baliza o crescimento de Guimarães.
Vale a pena a esse respeito recorrer à memória e a intervenções na assembleia municipal de Guimarães para se perceber melhor tudo o que agora parece ter um valor que há anos não teve.
Sim, hoje, já não é possível ir pelo Arquinho até Silvares e à autoestrada, mas que, ali em Brito, ainda é visível o local onde seria a ligação, é. Infelizmente já não vale de nada. E falar nisso agora seria levantar fantasmas que não interessam para um concelho que tem a certeza que sem crescimento nunca virá o futuro, por mais verde que seja. E isso, esteve arredado das preocupações dos decisores políticos vimaranenses durante tempo a mais. Pelo menos desde 1998.

3. Se um rio limpo e transparente é fundamental para que Guimarães alimente condignamente a enorme vontade de ser uma cidade verde (estou certo de que tal vai acontecer) urge vincar que uma ribeira sem poluição também o é. Seja pelos atalhos do desejo da ligação a um centro de excelência, seja (mesmo) pela urgência de uma cidade limpa.

4. Curiosamente, ou não, as grandes agitações vimaranenses do momento vão na mesma direção: Caldelas e, mais concretamente, a centralidade que é a vila de Caldas das Taipas. Deve ser coincidência. Ou então há coisas que passam ao lado da normal compreensão humana. Pelo menos dos vimaranenses que, vivendo na cidade, nunca percebem por que carga de água os cheiros pestilentos que a atravessam valem uma peva em comparação com a grande grandeza da outra margem do Ave.

Olhar do silêncio II

foto: igor martins (global imagens)
Ainda só estamos na Quaresma mas já há dois cordeiros da Páscoa. Nenhum foi servido em sacrifício para limpar os pecados do mundo, mas por uma causa bem mais prosaica: passar uma esponja pelos pecados do Governo no caso da lista VIP.
Editorial, Público, 15.03.20

Frio lá fora

É necessário instalar o inimigo na tua melhor poltrona.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
Desde que me habituei a olhar para o que me rodeia, isto é, o que faz sofrer ou ficar feliz, há um nome incontornável nos meus olhares: Mário de Oliveira. A primeira vez que ouvi falar do senhor ainda vivia imbuído de uma certa carga colegial; momento solene em que deixou para trás o lado “enclausurado” da vida, momento solene que me provocou imensos desafios. Um deles era saber quem era esse tal de “padre Mário, o comunista” que agitava a igreja católica portuguesa, a partir da Lixa; aqui mesmo ao lado.
Obviamente a curiosidade daqueles verdes anos ia muito para além da realidade teológica-qualquer-coisa-com-que-se-sai-do-seminário. Ouvi, li e aprendi a respeitar Mário de Oliveira.
E respeito-o tanto que ainda hoje – tantos anos depois de seguir outros caminhos – sigo religiosamente o que escreve. Dá tanto prazer! Faz crescer. Alimenta as raízes interiores e avisa sempre: não podemos dormir na direção do altar da crucificação!
Pronto! Já chega. Reproduzo uma parte da sua crónica 165, de 15.03.18:

segunda-feira, 23 de março de 2015

Olhar (local) do silêncio

As termas das Taipas, o museu de cultura castreja e as ruínas arqueológicas de Briteiros são apenas alguns exemplos das potencialidades do norte do concelho que importa destacar e valorizar enquanto recurso turístico relevante.
José Bastos, Reflexo, março 2015

O caos também se constrói?

Havia um fiscal no paraíso
não se sabe o que determinou que fosse um anjo.
Regina Guimarães, in voo rasante
imagem: crosstraining.pt
Dívidas do primeiro-ministro e lista de contribuintes VIP fizeram exaltar ânimos nas repartições de Finanças e da Segurança Social. Funcionários denunciam insultos, ameaças e agressões cada vez mais frequentes, pode ler-se na última edição do Expresso.
Na peça de Joana Pereira Bastos fica a saber-se ainda que funcionários exigem presença da policia nas Finanças, Segurança social e Centros de Emprego.
Ups!
Assim vai um “país de brandos costumes” chamado Portugal!
Até quando, senhores?

Olhar do silêncio

foto: dinheirovivo
A proteção da intimidade dos indivíduos e seus familiares, bem como de quaisquer informações que lhe digam respeito – sejam recolhidas por entidades públicas ou particulares – é um valor fundamental em todas as democracias.
Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Noticias, 15.03.20

domingo, 22 de março de 2015

bem sabes, sempre foi o meu vício

olhando em frente; o caminho
rasga-se nos olhos. leva
atrás  desejos segredos
sempre debaixo do convés mais discreto

em frente! portas abertas
pelo caminho fora. amanhã
outros caminhos vão atrás. rasgando
desejos. segredos. sempre debaixo do convés
mais discreto

o caminho para. tantos olhares rompendo
portas! sem o romper. em frente?
o caminho rasgando o silêncio doido:
futuro sem corpo.

Quem decide os teus futuros?

Tenho vontade de erguer coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios do alto.
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
foto: cm-guimaraes.pt
Foi preciso o presidente vimaranense ir a Braga para que Ricardo Rio não tivesse as luzes que o Quadrilátero Urbano lhe parece querer dar (mas não dá).
Repararemos então. Domingos Bragança quer que seja transferido para as empresas “o conhecimento que se produz no ensino”; desde logo, porque “quanto mais qualificados forem as pessoas, mais valor vai ser criado”.
Mas atenção, o presidente de câmara de Guimarães não se limita (apenas) a pedir transferência de conhecimento, quer a reindustrialização” da indústria, da economia, da agricultura e dos serviços. Até porque, sublinha o edil vimaranense, “temos do melhor que se faz no mundo e isso torna cada vez mais atrativa a nossa região para se fazer aqui a formação”.
Ah! Estas palavras foram proferidas no parque de exposições daquela cidade. Onde também estiveram António Cunha, reitor da Universidade do Minho e o homólogo bracarense de Bragança.
Parece que há por aí (ou por ali, naquelas palavras estridentes de Bragança) formação em ação. Por lá e por cá!

sábado, 21 de março de 2015

O ar sempre ocupou espaço vazio

Foto: Paulo Ricca (Público)
Despertarei ecos imortais em todos os estados do meu país.
Walt Whitman, in Cálamo
O pacote de 55 medidas prévias que o secretário-geral do Partido Socialista apresentou há dias em Santarém parece mais uma daquelas obras redondinhas e inócuas com que os políticos gostam de entreter a opinião pública.
Manuel Carvalho, Público, 15.03.15

para que (tudo) fique bem claro

Sem rodeios direi o que tenho de dizer.
Walt Whitman, in cálamo
Quem é o meu candidato a presidente da República?
É tão simples: Manuel Carvalho da Silva.
E por agora só digo que é, diga o que disser, a seguir e à pressa, um senhor feito líder partidário à pressa.

pura ilusão

foto: dinheirovivo.pt
Paulo Núncio pensava que VIP no Fisco significa Verdadeiros Idiotas Pagantes.
oInimigo Público, 15.03.20