sexta-feira, 17 de abril de 2015

Território da experiência

Um calendário na mão e tenta orientar-te e não é essa a forma, não é esse o entendimento.
Gonçalo M. Tavares, in animalescos
Amanhã não poderei, com o imensa pena, estar presente na sessão – ali mais abaixo, no laboratório da paisagem – da apresentação do programa preliminarecovia de Guimarães” e do “plano de ação da promoção da bicicleta” no concelho de Guimarães.
Pela novidade, pela vontade mudança de mentalidades e pela coragem de ser e fazer diferente não poderia deixar passar em claro esta iniciativa com o dedo do vereador Amadeu Portilha, confesso que fico com pena. Conforma-me saber que os utilizadores da bicicleta estarão em peso. É que é a primeira vez que poderão ouvir (e sentir) o que sempre almejaram para o seu território.
Assim, não duvido que a ecovia de Guimarães será um “projeto emblemático e estruturante na construção de um novo nível de exigência para consolidar o estatuto de Guimarães como cidade de excelência”.

Em suma, enaltecendo a decisão da autarquia vimaranense, não posso deixar de endereçar parabéns ao Alcino Casimiro, primeiro presidente da Ave; lembro muito bem da apresentação da sua ideia da ciclovia em Guimarães há uns anos atrás.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

História verdadeira

A vida é uma luta de todos contra todos.
Milan Kundera, in A Festa da Insignificância
As fases finais concentradas dos campeonatos nacionais universitários (CNU 2015) trarão até Guimarães cerca de 2.300 jovens universitários de todos o país.
Excelente!
Passando ao lado da qualidade – indiscutível – das instalações desportivas que povoam o território vimaranense, importa, fundamentalmente, registar o facto notável de que tal só é possível, porque há, em Guimarães, espaços. De qualidade.
Ah!, por via de algumas dúvidas que possam surgir ali de uns certos espaços da praça mais central – contra o sol ou do lado da sombra –, registo (com prazer) as palavras do vice-presidente da câmara de Guimarães, Amadeu Portilha, na conferência de imprensa de apresentação destes campeonatos: [Guimarães e Braga] “são duas cidades vizinhas, duas cidades que querem fazer destes os melhores CNU”.

Nota de rodapé: os jogos em Guimarães terão lugar em sítios como a UM, em Azurém, Taipas (pavilhão co CART), e, claro!, a cidade desportiva. É muita fruta!
A sombra, no Toural, já nem as bandeiras agita. 

Palavras fortes, belas; com ironia

Existem muitos autarcas e candidatos a autarcas que gostam de encher a boca com a palavra “estratégia” para adjetivarem positivamente as suas intervenções; é que assim influenciam o entendimento que os ouvintes devem ter do seu discurso.
Manuel Ribeiro, Reflexo, abril 2015

Ao ler esta prosa forte, intensa e extraordinariamente próxima de chegar às proximidades de perfeição (lembro que – em ano da luz – é importante olhar para Vladimir Naboskov: “o lenço baloiça sobre o abismo, e o senso diz-nos que a nossa existência não é mais que um breve espasmo de luz entre duas eternidades de escuridão”) – sinto uma vontade intensamente profunda de escrever que nem todos os candidatos a autarcas (ou autarcas) sabem o que é “estratégia”, mas não digo.
Digo, apenas, que não falta quem goste de saltar da cadeira no meio do povo para dizer que sabe falar. E fala, fala, e fala e nada diz. O povo baixa a cabeça e pergunta: quem é este artista? E mexe-se na cadeira. Muda o cotovelo e volta a dormir.
Ah! Estamos no ano da luz!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Boas novas além da dança de cadeiras loucas

O lema que hoje mais requere definição de um espirito é o de criador de indiferenças.
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
No mar bravio, frio e agitado, cada vez mais à deriva, como é o país de Barreiras, Soares, Portas, Passos e Cavacos vão surgindo noticias que nos fazem acreditar que o futuro pode ser um pouco menos violento do que o desenhado por estes senhores; noticias que nos garantem que amanhã estará alguém à nossa espera para nos (tentar) ajudar a viver com mais dignidade.
Reparemos nesta; tão simples: a associação de Psicologia da universidade do Minho deverá (arrisco escrever: será) uma (muito boa) realidade a breve prazo. Quem o diz é a presidente da Escola de Psicologia da UM, Isabel Soares.
Primeira constatação: a câmara de Guimarães – que é (será) um dos parceiros da associação – já disponibilizou espaço no seu centro, para instalar a APSI.
Segunda constatação: Guimarães, como sempre, continua atenta a quem pode arriscar precisar de ajuda por culpa dos Barreiras, Soares, Portas, Passos e Cavacos, ao mesmo tempo que está atenta (não, não me enganei na repetição; o pleonasmo existe em português; para reforçar a força das ideias) a quem “pode prestar serviço à comunidade do município vimaranense”.
Terceira constatação: os vimaranenses só podem agradecer a quem ajuda a ultrapassar as dores que Barreiras, Soares, Portas, Passos e Cavacos causam.

Olhar do silêncio III

Gravura: libertarianismo.org
A grande questão que hoje nos conforta é a de saber se a democracia conseguirá sobreviver – enquanto garantia da conciliação da liberdade e da igualdade como direitos universais – àquela “diversidade quase atroz” de que testemunha o narrador fictício da “Lotaria na Babilónia” – o conto admirável de Jorge Luís Borges.
Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Noticias, 15.04.09

terça-feira, 14 de abril de 2015

Rajada de palavras

A crítica é saudável e ajuda a que as coisas tenham uma existência.
Rui Massena, E, 15.02.22

A comissão permanente do caminho cultural do Atlântico vai promover, ao longo do ano em curso – já estamos no quarto mês do ano da graça de 2015, para quem não tenha reparado! –, “encontros profissionais de setores culturais e identificar programas de ajuda europeia a fim de conseguir financiamento”.
Caramba! Ainda não estão identificados os programas? E, quiçá, as ações…
Os profissionais do setor cultural sabem muito bem de que falam, o que fazer e o que querem; caramba!

Será por isso que nalguns municípios (antes, grande referências da ação cultural) a oferta e a qualidade culturais caem a pique?

Colossal falhanço

As avós são presidentes da república e as mães primeiros-ministros.
Carmo Afonso, E, 15.04.11
1. Na sua habitual coluna semanal no Expresso, Pedro Santos Guerreiro é um fenómeno. De popularidade. De bem escrever. De antecipar o futuro. De dizer o que cada um de nós gostaria, mas não faz. Por falta de espaço; por medo das palavras ou simplesmente por causa disso; das palavras.
É obrigatório em Portugal, um país que ruma ao precipício e que de lá não sairá tão cedo, ler o jornalista que transitou de antigo diretor do Jornal de Negócios.
No último sábado Santos Guerreiro mata, de vez, o futuro do PS. Por isso, também, é obrigatório lê-lo. Vamos então devagarinho.

2. “Foi o PS que matou Sampaio da Nóvoa”, começa por escrever Pedro Santos Guerreiro. Para de seguida, e muito bem e com muita classe, não mostrar medo das palavras: “o problema não é haver Nóvoa e não haver Guterres, o problema é o PS”.
Que mais se poderá dizer? Por mim, assino por baixo, lamentando a estapafúrdia estratégia do senhor António Costa.

3. Então o PS vai morrer?
Não, não vai!, mas matará quem o quer matar.
Depois das próximas eleições – até lá confirmaremos como António Costa não só não presta, como é um político saído das punhaladas de quem mata por dentro para dizer que existe e nem sabe porque existe –, o PS em Portugal será aquilo que foi, mas já não é. Infelizmente!

4. Pedindo desculpa por esta derivação (no ponto 3.) importa voltar ao texto de Pedro Santos Guerreiro: “quando toda a gente de fora podia estar a olhar para a subida do desemprego e toda a gente de dentro poderia amolar facas para a sucessão, é para o PS que se olha e do PS que se fala – do que o PS faz e como o PS se desfaz”.

Olhar do silêncio II

gravura:elo.com.br
A escolha de um dos garantes da democracia [presidente da República] parece agora ficar à mercê dos que melhor souberem utilizar e manipular os media.
João Adelino Faria, Dinheiro Vivo, 15.04.11

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Problema de protagonismo

Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
foto: cm-guimaraes.pt
Diz José Bastos que a orquestra de Guimarãesconstitui um bom exemplo da estratégia da autarquia no incentivo à criação artística”. E que ela é também “uma resposta para um conjunto de jovens talentos das várias escolas de música da região”.
Estou completamente de acordo com o vereador da cultura na autarquia vimaranense; é fundamental que exista no território vimaranense uma estrutura que potencie o talento dos jovens.
Estou também certo que o vereador José Bastos está de acordo comigo se eu escrever que nós vimaranenses já devíamos saber quais são as outras possibilidades para ‘ocupar’ outros jovens com talento; e há-os muito bons noutras áreas musicais (e não só).
Sim, eu sei!, vai acontecer um dia, quando as bandas de garagem tiverem o seu espaço…
Sim, eu sei, no verão e em Barco, já se vai vendo algo…

O passado sempre foi um filão para vontades atávicas

A História nega coisas certas. Há períodos de ordem em que tudo é vil e períodos de desordem em que tudo é alto. As decadências são férteis em virilidade mental; as épocas de força em fraqueza de espírito.
Fernando Pessoas, in Livro do Desassossego
Há uma entrevista, de Valdemar Cruz (Expresso, 15.04.03) a Anselmo Borges que importa reter e, porque não?, guardar junto ao missal sempre exposto sobre certos altares da celebração. Pelos sinais de preocupação em relação a uma igreja que “precisa de estruturas mais democráticas e mais participadas”, mas, fundamentalmente, pela forma direta como o professor de filosofia põe o dedo numa ferida sempre por cicatrizar: “estamos habituados a ler a história como a história dos vencedores. É preciso lê-la no seu reverso, que é a história dos ofendidos, dos colonizados, das mulheres”.

E ler (ou escutar) o padre Anselmo Borges é ter os olhos sempre abertos para as dores do dia-a-dia; sempre direcionados para quem tem responsabilidades na sua igreja: “não percebo como é que num tempo de crise, em que há gente a passar muito mal, em vez de andar à procura da canonizar este e aquele, não se canoniza o padre Américo, que é o exemplo vivo do evangelho junto dos mais pobres”.
E, diz este professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que “quem tomou conta do mundo já não é o Deus do amor, mas o ídolo do dinheiro”. Ninguém acredita, claro! Que o bom do padre Américo não é santo por causa disso. Era o que faltava!
Ah! A admiração de Anselmo Borges pelo atual líder dos católicos não deixa dúvidas: “o papa Francisco dizia que a igreja, na sua história, está cheia de fragilidades. Diria de crimes, inclusivamente”. É verdade, não é?

É sempre bom sentir olhares refrescantes do lado de onde nem sempre os ventos são os melhores para quem se sente cansado dos horrores que matam os dias.

Olhar do silêncio

foto: odisseiasnosmares.com
O país parece uma barca a meter água. E a inclinar-se para o litoral. Para dentro é o deserto. Falham os empregos. Fecham os cafés. As escolas estão sem almas, os médicos arrepiam caminho. Tira-se água com um balde, a ver se o barco aguenta.
Domingos Andrade, Jornal de Noticias, 15.04.11